Que autoriza a ação analítica?

Que autoriza a ação analítica?

Marcelo Veras - EBP/AMP - Fotografia. Série Tempo em preto e branco.

Marcelo Veras – EBP/AMP – Fotografia. Série Tempo em preto e branco.

Luiz Felipe Monteiro – EBP – AMP

Esta é uma daquelas perguntas fundamentais com a qual o analista pode se confrontar a cada encontro contingente com alguém em situação de atendimento.

Quando esta situação ocorre em um contexto institucional, onde o significante da transferência não está antecipadamente atrelado ao significante que designa o analista, trata-se de uma pergunta ainda mais pertinente. Nesses casos, não há “ancoragem na suposição de saber”, para utilizar uma expressão de Eric Laurent.

Parto, fundamentalmente, desse contexto, para desdobrar as consequências dessa questão. Afinal, os primeiros lances da partida serão definidos decididamente pelo consentimento libidinal que ali pode ser ensejado e isto não está dado de antemão, especialmente nesses contextos.

Interrogar sobre autorização da ação analítica é, nesse sentido, um primeiro passo para um esvaziamento de um certo imaginário acerca da situação de um atendimento. O analista não está autorizado de antemão, nem porque se representa por este significante, nem tampouco porque alguém chegou à situação de seu encontro. Não é condição suficiente, tampouco, haver um mal-estar sob a forma de uma queixa bem marcada e contundente.

Se partimos da premissa onde o sintoma é, desde já, fonte de satisfação substitutiva e solução de compromisso, o que autoriza o praticante a compor o quadro de seu circuito libidinal?

Vou me ater a algumas passagens ao longo do ensino de Lacan, onde ele comenta sobre o tema da autorização do analista e, com isso, fazer um giro que me permita abordar o tema da interpretação.

A primeira citação está no Discurso de Roma, em 1953. Neste momento, Lacan busca esclarecer aquilo que está no cerne da técnica analítica: o muro da linguagem.

Vocês podem servir-se dele [do muro da linguagem], para atingir seu interlocutor, mas sob a condição de saberem que quando se trata de utilizar esse muro, vocês estão ambos do lado de cá, sendo, portanto, preciso atingi-lo de banda e não objetivá-lo do lado de lá. Foi isso que eu quis apontar, ao dizer que o sujeito normal partilha esse lugar com todos os paranoicos que correm pelo mundo, na medida em que as crenças psicológicas a que esse sujeito se apega, na civilização, constituem uma variedade de delírio que não se deve considerar mais benigna, por ser quase geral. Seguramente, nada autoriza vocês a participarem dela, a não ser, justamente, na medida enunciada por Pascal, segundo a qual equivaleria a ser louco de uma outra forma de loucura, não ser louco de uma loucura que parece tão necessária.

Esta é a maneira lacaniana de afirmar como a situação analítica não é uma situação de intersubjetividade, onde de cada lado do muro está o praticante e, do outro lado, o analisante. Aquilo que estaria do outro lado do muro não é uma alteridade do tipo especular (não é o analista como semelhante), tampouco é uma alteridade do tipo verdade recalcada a ser decifrada como causalidade primordial.

“Muro da linguagem” é a metáfora utilizada aqui para lembrar como na experiência analítica não há Outro do Outro e, tampouco, há uma metalinguagem. Estas são verdades primeiras do ensino de Lacan e, por isso mesmo, não se corroem com o tempo.

A maneira como cada um habita a linguagem constitui o próprio limite de sua experiência subjetiva, “o limite de sua liberdade”. O genitivo da expressão “muro da linguagem” demonstra como a linguagem é o próprio muro no qual cada corpo falante está emparedado e aparelhado.

Contudo, trata-se de um muro de um lado apenas – essa é a visada peculiar de Lacan. Tal como a fita de Moebius, com o seu único e mesmo verso, o muro da linguagem não tem um anverso. As voltas percorridas por cada um, em seu próprio limite linguageiro, determinam as formas de vida do seu modo de gozar. O horizonte de possibilidade do gozar é dado pelos limites do regime de satisfação limitado pelo muro da linguagem. O modo de sujeição aos significantes do Outro sobredetermina as condições para a manifestação do sintoma para cada um.

A interpretação é por onde esse circuito limitado e limitante encontra alguma fissura, uma infiltração e, assim, a consistência do muro da linguagem descobre algum limite. Lacan dirá não haver outra maneira de atingir esse efeito, que não seja através da própria linguagem.

Não se trata de um “bangue bangue de interpretação” (expressão utilizada por Lacan em seu texto), como se a interpretação do lado do analista atingisse o analisante do outro lado. Trata-se do efeito de abertura que a suspensão do sentido produz, um efeito somente alcançado com o consentimento do sujeito.

Por isso, o sintagma por onde está autorizado o analista a estar-aí – “segundo a qual equivaleria a ser louco de uma outra forma de loucura, não ser louco de uma loucura que parece tão necessária” – não é sinônimo de uma saída segura e entusiasmada por outra via mais ou menos penosa. Não há o outro lado do muro nem mesmo para a loucura. Trata-se da possibilidade de estar-aí [na loucura, no sintoma, na linguagem], sob outras formas de vida, o que não está garantido de antemão e, tampouco, constitui solução estável. Este horizonte de possíveis diante do gozo “tão necessário” é o que nos autoriza a participarmos dessa aventura.

Com isso, chego a um segundo recorte no Seminário 11, em 1964, onde Lacan comenta novamente sobre aquilo que justifica a intervenção analítica:

Aqueles com quem temos que nos haver, os pacientes, não se satisfazem, como se diz, com o que são. E, portanto, sabemos que tudo o que são, tudo o que vivem, seus sintomas, dependem da satisfação. Satisfazem algo que, sem dúvida, vai contra isso com o que poderiam se satisfazer, ou ainda melhor, satisfazem a algo. […] Digamos que para essa classe de satisfação, há que sofrer demais (trop de mal). Até certo ponto, esse sofrer demais (trop de mal) é a única justificativa de nossa intervenção.

A aparente contradição é a maneira encontrada por Lacan para ilustrar como os limites onde o sujeito se reconhece em pronome pessoal – “Eu sou” – são também os limites para localizar a satisfação, somente conjugada em pronome impessoal – “isso goza” -, ou seja, a satisfação implicada naquilo que constrange o próprio paciente em suas identificações. Nesse sentido, é o paciente quem melhor realiza o diagnóstico preliminar do seu programa de gozo. Aqui, o “sofrer demais, tão necessário” não se reduz à queixa ao Outro, nem tampouco ao pseudodiagnóstico a tiracolo, mas um sofrer que alguém encontra consigo mesmo.

A atenção e, sobretudo o respeito a esta dimensão da vida do sujeito, é o que permite ao analista, encontrar um lugar para a sua ação; ou seja, o manejo, a intervenção, a interpretação. Não há outra condição para tanto, senão essa espécie de reconhecimento daquilo onde alguém não se reconhece mais. O encontro com um analista é a possibilidade para que esse modo de enunciação sobre o próprio gozo possa encontrar alguma leitura.

Aqui, chego à última passagem de Lacan sobre o tema, agora no Seminário 24, em 1977:

“é impossível dar o atributo do saber a alguém: aquele que sabe, na análise, é o analisando. O que ele desenrola é o que ele sabe, exceto que é um outro (mas existe um Outro?) que segue o que ele tem a dizer, para saber o que ele sabe […] Há o Um, mas não há nenhum Outro. O Um, eu disse, o Um dialoga sozinho, pois ele recebe sua própria mensagem sob a forma invertida, é ele que sabe e não o suposto saber.

Essa é a maneira de o último Lacan pôr à prova, o seu muro da linguagem de apenas um lado. Na medida em que o analista lê esse registro do Um e a mensagem retorna invertida sob a forma da interpretação, algo da repetição em ato passa a ser elaborado sob transferência.

O analista que segue, o faz por meio do trabalho de elaboração que o falasser desenrola, sob transferência, em torno do gozar inaudito e opaco. Isto não é sem efeito, pois há um saber sobre o modo de gozar que se decanta. Isto já é pôr, sob outra forma de vida, o gozo do Um sozinho, pois a elaboração promovida pelo endereçamento da fala já tem uma dignidade interpretativa.    

Afinal, como diz Laurent sobre essa passagem do Seminário 24:

O analisando sabe, e é suficiente que ele se enderece ao Outro que não existe para que se produza o efeito de retorno. Mas isso só pode operar se dermos a esse saber, a sua dimensão de singularidade radical. Não podemos saber do que isso se trata antes que esse saber seja recebido em sua forma invertida”.

O efeito retorno daquilo que ultrapassa as representações do falasser é o mesmo que dilui as fronteiras estabelecidas do muro da linguagem em cada caso. É quando o falasser se reconhece onde não se suspeitava. Que esse efeito retorno possa ser lido, este parece ser um ponto onde realmente a aventura da análise tem início.

O analista em sua ação é, portanto, um suporte de uma espécie de reconhecimento daquilo que não cabe nos predicados do Outro. Trata-se, sobretudo, de um suporte para ressoar algo que, na vida do sujeito, não tem inscrição no muro do Outro. Durante o tempo do atendimento, seja ele qual for, esse Um-vivo que não cabe na vida, pode ter lugar num laço sempre arriscado (é sempre bom lembrar), que é o laço transferencial. Isso, certamente, nunca é pouco.


NOTAS:

1.Refiro-me a contextos de oferta de atendimento, mediados por instituições como são os exemplos da Rede de Psicanálise Aplicada ou mesmo o plantão de atendimento psicológico na Universidade Federal da Bahia (PSIU).

2.Lacan, J. “Discurso de Roma” (1953), Outros escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 2003.

3.Lacan, J. (1964) O Seminário, Livro 1, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1985, p. 158.

4.Lacan J., “Le Séminaire, livre XXIV, L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre. Leçon du 10 mai 1977”. Ornicar?, N°17-18, Navarin, Paris, 1979, p. 18.

5.Laurent, E. “Disrupção do gozo nas loucuras sob transferência”, Opção Lacaniana, Nº 79, 2018.

6.Esta parece ser uma maneira interessante para localizar o ponto de limite da experiência temporal em dispositivos como a Rede de Psicanálise Aplicada ou mesmo um plantão psicológico como o PSIU, onde a oferta está limitada temporalmente.

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