Rumo a uma psicopatologia não-toda

Rumo a uma psicopatologia não-toda

Mônica Biaggio - EOL-AMP - “Incerteza”. Tinta sobre papel. Abril, 2020.

Mônica Biaggio – EOL-AMP – “Incerteza”. Tinta sobre papel. Abril, 2020.

Ruskaya Maia – EBP – AMP

A teoria psicanalítica tem sua origem, na genialidade de Freud, para formalizar o que ele extraía de seu encontro com o paciente que, junto com seu sofrimento particular, traz sempre algo do mundo e de sua época, para o consultório do analista. Por isso, a psicanálise deve, necessariamente, atualizar suas ferramentas conceituais, para estar à altura dos desafios de seu tempo. É dessa forma, que concebemos que a clínica psicanalítica que cabe para os dias de hoje, não governados pelos ideais universais da tradição, onde a felicidade do gozo sem medida se faz, muitas vezes, imperativa, é aquela orientada para o singular, como preconizou o último ensino de Lacan. E, nesse contexto, a clínica psicanalítica ultrapassa o binário que opõe neurose/psicose, considerando essa distância em termos gradativos, formalizando uma continuidade dos campos. “Esta igualdade nos leva a falar de modos de gozo em particular. Se fala, precisamente, de modos, quando se fez desaparecer a descontinuidade das classes. Todos iguais ante o gozo, todos iguais ante a morte, etc., já não se distinguem classes, senão modos, que são variações”.

Em 1915, Freud escreve um texto intitulado Neuroses de Transferência, uma síntese. Nele, de certa forma, dá continuidade à hipótese filogenética desenvolvida em Totem e Tabu, sobre a origem do sentimento de culpa, e marca a melancolia como uma fixação do sujeito num momento imediatamente posterior ao assassinato do pai, impedido de participar do banquete totêmico, pela culpa retroativa que não consegue elaborar. A partir dessa referência, Dafunchio propõe que a melancolia está situada numa zona de fronteira entre a neurose e a psicose, pois, não se trata do pai vivo da psicose, mas tampouco é o pai sublimado pelo significante da neurose. A relação é, antes, com o cadáver do pai. “[…] se trata de um tempo lógico do mito em que o pai está morto e, no lugar de sua ausência, não se fez presente um significante. Como ocorre na neurose. É uma pura ausência, um puro vazio, uma pura perda, que não se transmuta na função simbólica da castração […]” .

Para explorar isso que chama de “zona de fronteira”, Dafunchio lança mão da análise feita por Lacan, de Andre Gide, destacando um possível reverso entre a perversão e a melancolia. Sua tese é a de que “O que nos ensina o caso Gide é que o sujeito melancólico pode, eventualmente, recorrer a uma prática perversa, para obter algum gozo erótico de seu lugar de resto”.

Na análise que faz dos elementos que compõem a sexualidade de Gide, Lacan toma como pivô, o fato de que ele não foi um menino desejado. Sua mãe lhe devotava um grande amor, porém, totalmente identificado à lei. O caráter de invólucro do amor materno denuncia a ausência do falo como terceiro elemento na relação, o que faz desse, um amor não enlaçado ao desejo, enquanto simbolizado pelo falo. A afirmação de Lacan, segundo a qual Gide foi uma criança amada, porém não desejada, aponta-nos para uma mortificação do falo. Se tomarmos a Metáfora Paterna a partir desse pressuposto – é o que Miller propõe – devemos escrever o falo negativado, mas de uma maneira distinta da castração. Encontramos aí, portanto, uma duplicidade: de um lado, a mortificação do falo e, de outro, consequentemente, o gozo do falo desempenhando seu papel à parte. E assim se explica uma localização clínica que faz Lacan: Gide, originalmente, está entre a morte e o erotismo masturbatório. “Nos apercebemos de que há ali uma repartição da função fálica, entre sua mortificação nas mãos da mãe e sua liberação de modo solitário, como gozo do idiota, fora de todo laço social, fora de todo laço sexual” .

Dessa forma, em nada nos surpreende encontrarmos um tom melancólico em Gide, ao se referir a sua infância, apresentada por ele como “toda cozinhada na sombra”, marcada por uma falta de graça. Suas primeiras fotografias o mostram feio, com o rosto contraído e ranzinza. Ele, que foi uma criança solitária, fazendo o relato de sua infância, descreve-a assim: “A espessa noite em que minha puerilidade se demorava” , “O estado larvar em que eu me arrastava”, ou ainda, “As trevas em que se impacientava a minha infância” .

É no sentido de um refinamento clínico, também proposto por Lacan, que entendemos a articulação de Dafunchio sobre o problema diagnóstico que surge entre o que seria uma suposta detenção no primeiro tempo do Édipo, que Lacan define como uma forma primária de perversão, e o que pode ser uma suplência perversa em uma psicose, ou seja, a cisão do falo que aparece em Gide, “tem a ver com o fato de que não se completou a operatória edípica ou é um resultado da foraclusão do falo, na raiz da qual o sujeito encontra uma suplência imaginária, um recurso ao falo imaginário que faz suplência e o mantém distante desse buraco?” .

Definir a posição de Gide entre um erotismo masturbatório e a morte é localizar seu gozo, exatamente, numa zona de fronteira. Se Lacan faz prevalecer a vertente melancólica de Gide, ao apontar seu lugar de objeto dejeto como criança não desejada, ele diz: “Há pessoas a quem faltou, na primeira infância, serem desejadas. Isso as impele a fazerem coisas para que isso lhes suceda, já tarde”. Fazer-se desejar, segundo Dafunchio, é uma definição muito simples do que pode ser uma prática perversa. Mais adiante, no mesmo seminário, Lacan lança mão do conceito de perversão como instrumento do gozo do Outro, para cernir a relação de Gide com Deus: “Ali onde o A ganha forma, Gide tinha até uma ideia totalmente específica dele, a saber, que o prazer desse grande A era estragar o de todos os pequenos a”.

Miller observa que Lacan, embora já tivesse constituídas suas premissas teóricas acerca da estrutura perversa, esforça-se para abordar o caso Gide de uma maneira não standard, advertindo o leitor com relação ao “encanto do já ouvido” que, praticamente, impõe a preponderância da relação com a mãe como norma para a posição homossexual. Ele escolhe seguir o caminho de Jean Delay, que destacou a dissociação em Gide, entre o amor e o desejo, e articula esses dois termos numa abordagem então inovadora, fazendo dessa dissociação, a chave de sua construção. “A lição de Lacan no seu texto […] é de insistir sobre a particularidade do caso e de pôr em questão, a unidade desta categoria clínica: a homossexualidade masculina” e, acrescentamos, a partir de uma clínica das sutilezas, caracterizando a abordagem lacaniana do caso como absolutamente atual e consonante com o que se propõe na clínica das suplências. “Podemos dizer que de início, a abordagem de Lacan visa tomar pelo avesso a doutrina comum” e pergunta: “será um bom ponto de partida, procurar o standard da estrutura clínica?”.

Essa pergunta de Miller guarda o que há de mais atual e pungente na clínica psicanalítica contemporânea. Se a questão do diagnóstico foi algo que esteve sempre em pauta na clínica lacaniana, sua atualidade implica numa única posição para o analista: articular o que há de particular na estrutura com a singularidade do sujeito, levando ao limite, o que se pode extrair do singular de cada caso. Não se trata de não classificar, mas de ir rumo ao que Dafunchio definiu como uma psicopatologia ‘não-toda’, que ultrapassa a lógica do conjunto fechado psicose/neurose. “Em um uso não-todo da psicopatologia, não se trata de que não tenha um limite […], senão que há algo mais que nos ultrapassa e, então, deixamos esse espaço aberto”.


NOTAS:
1.Miller, J-A. et al., La Psicosis Ordinaria: la convención de Antibes, Paidós, Buenos Aires, 2006, p. 202. Tradução nossa.
2.Dafunchio, N.S., Ni neurosis, ni psicosis, Del Bucle, Buenos Aires, 2015, p. 69. Tradução nossa.
3.Ibid., p. 121. Tradução nossa.
4.Miller, J.A., “Sobre o Gide de Lacan”, http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero18/Sobre_o_Gide_de_Lacan_Parte_II.pdf, p. 8.
5.Martinho, M-H.,Perversão: um fazer gozar”, http://www.pgpsa.uerj.br/wp-content/uploads/2016/07/ Tese-completa-Maria-Helena.pdf, p. 174.
6.Idem.
7.Idem.
8.Dafunchio, N.S., Ni neurosis, ni psicosis, op. cit., p. 120. Tradução nossa.
9.Lacan, J., O Seminário, livro 19: Ou pior (1971-1972), Zahar, Rio de Janeiro, 2012, p. 71.
10.Ibid., p. 72.
11.Lacan, J. “Juventude de Gide ou a letra e o desejo” (1957-1958). Escritos, Zahar, Rio de Janeiro, 1998, p. 759
12.Miller, J.A., “Sobre o Gide de Lacan”, op. cit., p. 9.
13.Ibid., p. 15.
14.Idem.
15.Dafunchio. N.S., Ni neurosis, ni psicosis, op. cit., p. 29. Tradução nossa.

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