Saber fazer com a diferença

Saber fazer com a diferença

Difusão das III Jornadas da NEL CdMx

Difusão das III Jornadas da NEL CdMx

Carolina Puchet Dutrénit – NEL – AMP

#UmDiaSemMulheres

Exerço minha prática clínica na Cidade do México, a cidade onde nasci. Cresci ouvindo dizer que ela é uma das maiores do mundo. Essa imensidão é, por um lado, inacreditável, porque é muito viva; é difícil ficar entediado porque acontecem coisas em diferentes níveis o tempo todo.  Há congestionamento de carros, uma inumerável oferta cultural, desportiva e de entretenimento. Mas, por outro lado, essa imensidão também significa viver com cautela e com um certo medo da violência cotidiana, dos assaltos, da insegurança. Agora, crescer na Cidade do México como mulher sempre significou, a certa altura, sentir medo. Medo de andar na rua, medo dos homens no transporte público, medo dos homens nas ruas. Medo dos homens.

Atrevo-me a dizer que esse sentimento é um denominador comum às mulheres que habitam nessa cidade e é algo a que nos acostumamos de uma maneira um pouco forçada. Acostumamo-nos a pensar na roupa que deveríamos vestir, antes de usar o transporte público, para não provocar mais olhares lascivos do que os estritamente necessários. Acostumamo-nos a ouvir os homens na rua nos dizer coisas sobre nosso corpo. Acostumamo-nos a que se saíssemos sozinhas à noite, algo muito ruim poderia nos acontecer. Acostumamo-nos que nossos próprios amigos e familiares falassem  mal sobre mulheres, tratando mal suas parceiras. Acostumamo-nos a calar: “Caladinha, você parece mais bonitinha”.

Hoje, a violência contra as mulheres (não só na cidade como em todo o país) chegou a um nível tão elevado que, pela primeira vez na história, as mulheres decidiram fazer uma paralização que nomearam #UmdiaSemMulheres. No dia 09 de março de 2020, as mulheres convocaram as mulheres a não saírem às ruas, para dizer à sociedade e ao governo: basta, nem uma a menos. Não mais mulheres maltratadas. Não mais mulheres maltratadas. Não mais mulheres assassinadas.

Os feminicídios são, para os mexicanos, uma notícia com a qual amanhecemos todos os dias. É, sem dúvida, uma realidade que já não é possível enfrentar com nosso silêncio. As meninas, adolescentes e jovens de hoje estão nos ensinando outro modo de entender a violência com a qual crescemos. É um modo disruptivo, de empoderamento, de rechaço aos homens. Não querem os homens opinando em algo que trata das mulheres. Os homens só podem observar e escutar. Passamos do silêncio a uma denúncia enfática, agressiva e sancionadora para os homens. 

O insuportável da diferença

A época atual realça, mais que nunca, o insuportável da diferença sexual: homens e mulheres claramente divididos, ou mesmo, confrontados. Agora, para os psicanalistas, a diferença é de outra ordem, não tem a ver com a diferença anatômica dos sexos. É um modo de ordenamento que o sujeito que nasce na linguagem utiliza para simbolizar a não relação sexual.

Sexual ou não, grande ou pequena, a diferença é um dos fundamentos da ordem linguageira. Opera, porque é, em primeiro lugar uma operação para, ao mesmo tempo, separar e enlaçar. É um par que permite, seja metonimicamente ou metaforicamente, um ordenamento de significantes, de palavras, de conceitos, de imagens, de sons.

O sujeito, desde tenra idade, tenta fazer uma divisão entre homem e mulher por meio da observação do corpo anatômico porque há algo que habita em seu próprio corpo, esse que sente, que lhe custa reconhecer como próprio, que lhe é impossível explicar com palavras. Trata-se do gozo que o habita e que para cada um resulta, em certa medida, estrangeiro.

Para Freud, a maneira de introjetar a diferença anatômica entre os sexos comportava uma saída pela lógica fálica para homens e mulheres. Quer dizer, os meninos sairiam, uma vez que tivessem atravessado o complexo de Édipo, e as meninas, o complexo de castração, por meio da produção da equação simbólica pênis-filho. Para Lacan, no entanto, a diferença anatômica como algo que tem a ver com a biologia é deixada de lado e ganham preponderância as posições sexuadas, que foram teorizadas, levando em conta que os sujeitos são tocados pela linguagem. O feminino e o masculino são modos de gozar que estão além de ser homem ou mulher. O gozo fálico e o gozo feminino ou gozo suplementar são gozos que habitam tanto as mulheres como os homens. O gozo fálico pode se inscrever no Outro, algo se pode dizer sobre ese gozo, inclusive se poderia dizer que tem uma representação imaginária. A dificuldade que todo sujeito enfrenta é com o gozo feminino, porque este é rebelde ao esforço de significantização.

A diferença, para os psicanalistas, não está organizada pela ordem binária, senão pelo Todo e não-todo. Todos os sujeitos que falam gozam da diferença, muitas vezes em excesso e isso se torna insuportável. Não todos gozamos da mesma maneira, cada um o fazemos a nosso modo.

Não tod@s, um@ por um@

A época que nos coube viver, nosso mal estar na civilização, está marcado pela decadência da função do pai, pela queda do Outro como organizador do simbólico, pela pluralização dos gozos e seus modos de regulação. Claro, isso tem efeitos na subjetividade e os analistas deveriam poder transmitir por que nosso discurso oferece uma alternativa diferente a outras ofertas terapêuticas que buscam normativizar, dar soluções standards em nome de ter uma maior eficácia em um tempo recorde.

Se, como disse Lacan, há que estar à altura da subjetividade da época, como isso pode acontecer em meio à violência desmedida contra as mulheres? É claro que não podemos oferecer um movimento #todasgozamos, mas se um psicanalista tem algo para oferecer é seu desejo de escutar. Seu desejo de localizar um sujeito para além de uma vítima, um sujeito falado pela linguagem, que deixou marcas de gozo em seu corpo. O psicanalista deveria poder acolher a diferença de outro modo e saber fazer com ela.

Os psicanalistas, nesta época, deveriam poder transmitir que a diferença é o mais digno que temos como sujeitos de linguagem. Que os tratamentos standards para todos desconhecem o mais íntimo do um a um. Reconhecer que a diferença é algo que nos habita a cada um permite fazer um laço distinto com os outros.

Tradução: Ruskaya Maia

NOTAS:
1.Arteta, I., “Cuál es el origen del paro nacional del 9 de marzo #UnDíaSinMujeres”, https://www.animalpolitico.com/elsabueso/origen-paro-nacional-9-marzo-sin-mujeres/
2.Brousse, M.H., “El Agujero Negro de la Diferencia Sexual”, https://psicoanalisislacaniano.com/2019/08/08/mhbrousse-agujeronegro-diferenciasexual-20190502/
3.Camaly, G., “Feminización del mundo vs. posición femenina”. http://www.revistavirtualia.com/storage/articulos/pdf/8u1BI8KSVXxYNPdRzj0pqX5

Comentários estão fechados.