Solidão

Solidão

Difusão IX Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise. Seção São Paulo

Difusão IX Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise. Seção São Paulo

Valéria Ferranti – EBP – AMP

Uma jornada implica um percurso e um percurso implica movimento. Para as IX Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção São Paulo, elegemos nos movimentar sobre a Solidão.

Nosso ponto de partida foi uma pergunta sobre o fazer psicanalítico no tempo que corre, no tempo da “desinibição do pior”, como escreveu Nuno Ramos. Pergunta que orientou a Diretoria a eleger o tema Segregação como eixo epistêmico para o biênio 2019-2020.

Sabemos com Lacan que a segregação pode ser tomada em duas vertentes não excludentes:  a segregação estrutural, inerente à linguagem, como operação simbólica que exclui necessariamente algo em seu exterior para construir um interior limitado. Princípio freudiano de uma exclusão primária, do rechaço originário de um objeto ou de um gozo. Qualquer fenômeno segregativo deve considerar como fundamental que o que ficou fora da simbolização retorna no real. E a segunda vertente da segregação, onde o retorno pode se dar através da  segregação social.

Como cada parlêtre se arranja com a segregação estrutural? E aqui nos deparamos com a Solidão. Uma solidão estrutural que anda pari passu com a segregação estrutural.

Após lançar o tema e a convocação para que cada membro da Seção São Paulo se colocasse a trabalho, Daniela de Camargo Barros Affonso lança o argumento:

“Que o poeta tenha muito a dizer sobre a solidão, disso não se duvida. E se, para o poeta, solidão é lava que cobre tudo, o que teria a psicanálise a dizer sobre ela?

Não se pode afirmar que a solidão se configure propriamente como um conceito em Freud ou em Lacan, mas, articula-se muitas vezes a importantes conceitos da obra de ambos. Muito ouvimos a respeito da solidão na clínica e nos interessa especialmente perseguir as formas como se apresenta neste âmbito”.

“[…] a solidão de que se queixam tantos pacientes parece o substrato da ética própria do neoliberalismo em que há máxima valorização do eu, na busca frenética da autossuficiência, da autorrealização e da autossuperação, levando ao que Laurent chama de paradoxos do individualismo democrático de massa. Lembremos de que, para Lacan, o discurso capitalista não estabelece laço social.

Em ‘Psicologia de grupo e a análise do eu’ Freud […] opõe o comportamento do sujeito no grupo àquele em que está em estado de isolamento. Chega a dizer que as grandes descobertas no campo intelectual ‘só são possíveis ao indivíduo que trabalha em solidão’. Poderíamos inferir daí algo como uma ‘ética da solidão’?”

Em “Introdução ao Narcisismo”, “Freud aborda a diferença entre a retirada da libido do mundo no parafrênico e no neurótico. Se o primeiro o faz de maneira efetiva, o segundo o faz […] de forma aparente, mantendo-a na fantasia. […]Haveria, assim, duas formas de solidão: uma alojada na fantasia e outra em que os laços sociais desaparecem por completo.” E quanto à solidão buscada pelo autista?, o argumento ainda indaga. E continua:

“É […] da dimensão estrutural da solidão que se trata na constituição do sujeito, resultado da experiência de separação ou de castração. […] [ela] é essencialmente simbólica, na experiência da presença ou ausência. Lacan, ao retomar o jogo do carretel descrito por Freud, […] [mostra] que a relação do sujeito é com a falta de objeto. […] No Seminário 11 Lacan afirma que “não há fort sem da”. Nesse sentido, o sentimento de solidão estaria ligado à suposição de que poderia haver uma presença ali onde algo está ausente.

Essa solidão estrutural diz respeito à própria divisão do sujeito, que o torna desejante ao ser introduzido no campo da linguagem. Tal solidão, inerente à constituição subjetiva, em última análise,é relativa à impossibilidade de o sujeito fazer Um com o Outro.

[…] Lacan, no Seminário 10, enfatiza que a maior angústia do sujeito estaria na falta da ausência. […] A angústia da presença do objeto é, certamente, marca do nosso tempo, invadido por infinitos objetos que se impõem ao sujeito. Dupla solidão: a da imposição da presença cujo efeito seria a deterioração do laço social, e a da necessidade da ausência, geradora de um eu isolado e fóbico.”

Há a solidão própria do ato, continua o argumento, expressa por Lacan no Ato de Fundação da Escola: “Fundo – tão sózinho como sempre estive em minha relação com a causa psicanalítica…”. “O instante do ato […] deixa o sujeito na solidão, ainda que o Outro permaneça em algum lugar de seu horizonte. Mas há aquele ato que implica uma ruptura definitiva […]: o ato suicida. Estaria aí o paroxismo da solidão?

Na perspectiva […] do falasser e do gozo, abre-se outro campo inesgotável de investigação. Quando o simbólico perde o papel de prevalência, no último ensino de Lacan, a referência ao Um do gozo sobrevém: Há-Um. É da própria essência do gozo seu caráter autêntico e solitário. Seria cabível falar na  solidão de um gozo em que haveria ausência radical da alteridade? Seria do gozo feminino, aquele que vai além do gozo fálico e coloca a mulher na posição de “não todo” que se trataria?

[…] Os relatos de passe trazem imenso material sobre a forma singular encontrada para suprir a ausência  da relação sexual, e como o sinthoma passa a ordenar a subjetividade de cada um. Certamente a solidão do final de análise é diferente daquela de que se queixam os pacientes no início de uma análise. Como diferenciá-las?

E como pensar a solidão neste coletivo, a Escola de psicanálise? Miller ensina que “a Escola é a soma de solidões subjetivas” onde os Uns sozinhos se reúnem em torno do ‘um a mais’: a causa analítica.

[…] Como se vê, são inúmeras as vertentes de pesquisa que se abrem no universo da solidão. Melhor seria dizer solidões, plural que se impõe diante de todas as facetas aqui aludidas e outras tantas a se explorar. É por isso que o convidamos, nestas Jornadas da EBP-SP,a, juntos, dançarmos a dança da solidão.”

O argumento nos permitiu formalizar as “Perspectivas do tema” em  três vertentes:

  1. “Quem fala só tem a ver com a solidão”: se Lacan situa a solidão intrinsecamente referida ao parlêtre, é para indicar, sobretudo, que “quando alguém se põe a falar, não encontra somente o fato de que o Outro está ausente, que ele não responde, mas descobre também alguma coisa que é efeito desta ausência. Este efeito é que o saber, o que é possível saber de si, do mundo, do inconsciente, rompe-se […]”, ou seja, trata-se de “solidão de ruptura de saber. Esta referência implica uma orientação precisa: poderíamos pensar que, com a psicanálise, tratar-se-ia de “promover a relação, a troca, a comunicação. Ao contrário, a solidão dá acesso, justamente, ao que é “impossível de intercambiar, comunicar, o que não se pode falar”, a isto que advém “quando se é confrontado não somente com a falta do Outro, com sua ausência, mas coma falta que somos nós mesmos em relação a nós.”
  2. Solidões e estruturas clínicas: A experiência da solidão somente pode existir referida ao Outro da palavra e da linguagem uma vez que está articulada a uma presença ou ausência do Outro simbólico. Nela, portanto, é a separação do Outro que está em causa e não sua recusa, uma vez que se “supõe um laço com a pergunta pelo desejo do Outro”, um Outro que poderia solucionar a falta inerente ao sujeito da palavra. Os desdobramentos possíveis deste operador – o laço com o Outro – permitem que situemos a solidão nas estruturas clínicas como paixão – na neurose -, ou mais precisamente “dor de existir” – na psicose. Estas balsas fundamentais são apresentadas por Miguel Bassols e elucidam, ainda, que se a “paixão do neurótico obsessivo pela solidão consiste em poder manter como parceiro uma unidade imaginária do falo, a paixão histérica pela solidão é a paixão da exceção, a paixão de ser o único ou a única”. Se ambas as paixões referidas à neurose implicam um laço com a função do Outro, na psicose a solidão está mais referida ao silêncio das pulsões suas à experiência de uma solidão extrema, tal como a de Schereber de ter “sido deixado pelas mãos de Deus na sua dor de existir”?
  3. Solidão não é isolamento: Esta tese de Philipe La Sagna- ao fazer ver que o isolamento, diferentemente da solidão, implica exclusão do Outro – não somente lança luz acerca do autismo, como permite ler, para além da estrutura clínica em questão que isolar-se é evitar a solidão. Busca-se um isolamento recorrendo a um objeto que estimule, uma droga, uma fantasia ou um delírio, “sem que se tenha a mínima realização da solidão”. Quando estamos na solidão “temos uma fronteira comum com o Outro”, enquanto que o isolamento é um muro se “estamos em uma época de construção de isolados”,isto decorre do fato de que “não se sabe mais onde começam e onde terminam as fronteiras.”

A partir destas perspectivas recebemos 57 trabalhos, dentre os quais 30 foram apresentados em mesas simultâneas e dois trabalhos foram para uma plenária. Trabalhos instigantes que renderam boas discussões.

As IX Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise, Seção São Paulo, além dos trabalhos apresentados nas mesas simultâneas, contou com duas conferências da convidada internacional, Marie-Hélène Brousse,  os testemunhos de duas AEs, duas plenárias dos AMEs e uma deliciosa conferência com José Miguel Wisnik abordando a solidão em Clarice Lispector.

Uma jornada de grande rigor epidêmico e que por muitos momentos encontrou a arte como uma das respostas para a solidão. Então, para finalizar,valho-me da escritora que esteve presente em vários momentos da nossa investigação:

O Terror

“E havia luz demais para os seus olhos. De repente um repuxão: ajeitavam-no, mas ele não sabia: só tinha mesmo era o terror de rostos inclinados para o seu. E ele não sabia de nada. E não podia se mexer livremente. As vozes que para ele eram trovões, só uma voz era cantante: ele se banhava nela. Mas logo em seguida era depositado e vinha o terror e ele gritava entre as grades e viu cores que depois ele entendeu que eram azuis. O azul o molestava e ele chorava. E o terror das cólicas. Abriam-lhe a boca e depositavam coisas ruins na boca, ele engolia. Quando era a voz cantante que lhe dava coisas ruins, ele suportava melhor. Mas era logo depositado entre as grades. Sombras gigantescas rodeavam-no. E então ele gritava. A mínima luz de tudo isso é que ele  acabara de nascer. Tinha cinco dias de nascido.

Depois de mais velho ouviu sem entender: Este menino já não dá trabalho, mas quando nasceu dava choros e urros. Agora felizmente é mais fácil de criá-lo. Não, não era mais fácil, nunca seria fácil. O nascimento era a morte de um ser uno se dividindo em dois solitários. Agora parecia fácil porque ele aprendera a manejar o seu terror secreto que duraria até a morte. Terror de estar na terra, com uma saudade do céu”. Clarice Lispector


NOTAS:

1.https://ebp.org.br/sp/jornadas/ix-jornadas/argumento-ix-jornadas/

2.AFFONSO, D. de C. B. Argumento Jornadas EBP-SP 2019 “Solidão”. In:  https://ebp.org.br/sp/jornadas/ix-jornadas/argumento-ix-jornadas/

3.LAURENT, E.,O avesso da biopolitica. Uma escrita para o gozo. Contra Capa, Rio de Janeiro, Novembro 2016.

4.FREUD, S. (1921) “Psicologia de grupo e a análise do eu”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda., vol. XVIII, 1976, p. 108.

5.AFFONSO, D. de C. B. Op. Cit.

6.Ibidem.

7.LACAN, J. Idem, O seminário, livro 11: os quatro conceitos da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990, p. 226.

8.AFFONSO, D. de C. B. Op. Cit.

9.LACAN. J., “Ato de fundação”. In: Outros Escritos, Jorge Zahar: Rio de Janeiro, p. 235

10.MILLER, J-A.,“Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola”, Opção Lacaniana online, nova série, Ano 7, Nº 21.

11.AFFONSO, D. de C. B. Op. Cit.

12.LA SAGNA, Philipe, “Do isolamento à solidão pela via da ironia”, Revista Coringa, n 44, EBP/MG.

13.BASSOLS, Miquel. Soledades. Disponivel em miquelbassols.blogspot.com

14.LA SAGNA, Philippe,“Do isolamento à solidão pela via da ironia”, Revista Curinga, Nº 44. EBP/MG.

15.LA SAGNA, Philippe,“D l’isolament ala solitude”,La Cause Freudienne, Nº 66. Paris ECF, 2007.

16.LISPECTOR, Clarice,A descoberta do mundo, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1999.

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