A psicanálise é uma cura por amor

A psicanálise é uma cura por amor

Bernardino Horne – EBP/AMP

É o amor que permite a instalação da transferência, e é ela, a transferência, que está no início da psicanálise[1].  Também é o amor que permite a ação no campo da economia da psicanálise e o segredo da sua vertente “cura”, na medida em que é ele que permite mutar o gozo em amor e desejo. No real buscamos o novo no amor.

Nestas linhas desejo fundamentar brevemente estas afirmações.

Transferência, amor e saber

A transferência, cujo matema Lacan escreve em Proposição, se apoia naquilo que ele chama de seu “pivô”, ou seja, no Sujeito Suposto Saber. É um elemento estrutural da linguagem.  É – “de inspiração”[2] – na medida em que, diante de uma pergunta, tem estruturalmente uma suposição de resposta. A própria estrutura tem as respostas. Estritamente falando, trata-se de uma crença. Crer na existência de um todo saber, um deus onisciente. Passa pela ideia infantil da existência de um pai que possui todas as respostas.

Deus

  1. d. P.

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Pergunta|

Lacan propõe o algoritmo da transferência[3]:

S/s (S1,S2…Sn) —-à Sq

Vemos nele que o sujeito, que possui um saber que não sabe, dirige-se com um Significante 1 a um analista. Este significante, chamado de “significante da transferência”, é o que, neste momento, nos interessa. É ele quem traz o novo: a iteratividade e as ressonâncias das posições primitivas de gozo do falasser. É por intermédio dele que o analista se orienta desde o primeiro momento para o real, para o gozo Uniano que perdura em cada significante, já que estas ressonâncias formam o fio da substância gozante que será furada pelo significante e terminará por formar a rede simbólica, imaginária e real da linguagem. Esta rede é o saber, escrito no algoritmo da transferência embaixo do Significante 1.

S1/Saber

Este S1 põe em tempo presente, a iteratividade, as ressonâncias de gozo sem sentido da ex-sistência. Coloca no tramado do discurso o gozo opaco da alíngua e o gozo do Campo do Uniano, gozo sem significante escrito na escrita borromeana.

É o momento do analista «dar o primeiro passo da experiência analítica que é introduzir nela o Um como o analista que se é”, como diz Lacan no Livro 19 do Seminário[4]. O seu ato, para isto, é se alinhar a isso que lê a sua opacidade, e se orientar para o real de tal forma que chegará a ser o Sinthoma para o qual começa por assumir a opacidade do discurso como pergunta e assim se unir ao objeto a ao deslizar do saber para a ignorância. O analista faz do objeto a uma pergunta que desenvolve a transferência.

S1/$—-àS2/a

Este passo permite um novo deslizamento para estabelecer o discurso da histeria.

$/a—-àS1/S2

Em cada mudança no discurso se produz amor. Neste caso um novo amor, inédito, que é o amor ao saber como objeto.

Cria-se assim um novo objeto: o objeto-agalma-saber.

Temos assim a primeira questão: o Significante Um traz ressonâncias diretas e iterativas do Significante Uniano. Mantem-se sempre o mesmo e sempre novo. Esta estranheza no familiar, este diferente no igual, dá a sensação de um Unheimlich, o infamiliar. Esta leitura conserva a vigência do algoritmo da transferência e, ao mesmo tempo, nos permite ver como o gozo se engata, muda, e é tecido com o campo simbólico-imaginário através do significante da transferência e do saber como objeto. Jacques-Alain Miller, numa conferência no Centro Descartes, antecipa esta afirmação sobre o significante da transferência, em Conferencias Porteñas Vol. II.

Retomo o saber. A conclusão de Lacan na Proposição é que o saber, na psicanálise, adquire valor de objeto. Para afirmar tal conclusão, recorre ao Banquete de Platão. Trata-se de um simpósio sobre o amor. Na declaração de amor “transferencial” que faz Alcibíades a Sócrates, Lacan lê: “As emboscadas do amor transferencial, o que encontra de atrativo de Sócrates em seu continente ingrato?”[5]. O que há, em seu interior, que provoca tanto desejo de poder ter o mesmo nele, para ser o sujeito ou o proprietário de um objeto tão precioso? O que Sócrates tem é o agalma: o saber guardado em seu interior.  Um conteúdo fascinante num continente tão feio.

Portanto, o analisando quer saber. Este é o seu desejo. E ama o saber que supõe no analista. A doença narcísica dos analistas é se identificar com o Sujeito Suposto Saber. Lacan chama isto de presunção.

E completa: “Nosso objetivo é formular uma equação cuja constante é o agalma”[6]. A transferência produz uma interseção inédita entre o amor e o saber. Isto se deve a que o saber, através da sua associação com o agalma, como vimos, adquire a forma de objeto causa do amor ao saber, que é uma das formas inaugurais da transferência. Há um casamento por amor entre o gozo e o saber.

 Há Um. 

Em Lituraterra, antes de seu último ensino, Lacan utiliza uma metáfora muito bonita para mostrar a ação do significante sobre o corpo. Nela, uma nuvem carregada de água cai como chuva sobre a terra, produzindo sulcos nos quais a água corre, à procura de uma saída.   A nuvem claramente representa o Outro, carregado de significantes que caem sobre o ser, virgem de marcas.  Vão se formando assim sendas de circulação que equivalem ao discurso, que vai se tecendo e, dessa forma, “facilitando” a passagem como diz Freud, ou “fixando”, como diz Lacan, o caminho da descarga, ou seja, o sentido daquilo que irá se formando como discurso.  Esta perspectiva é a partir do Outro e anterior ao há Um.

Miller, em O real é sem lei[7] usa essa metáfora para dizer, sobre a chuva significante que, sim, sem dúvida se trata de uma escrita, mas que antes dela se produzir, existe outra.  Então, há duas escritas.  A primeira é determinante, é uma escrita que se instaura a partir do Um. Não é como uma chuva, é como um vulcão que, de dentro, explode e traça sulcos pelos quais, posteriormente, se encaminharão os significantes que caem das nuvens do Outro.  Lacan reserva esse campo, que chamará de campo do Uniano, para a escrita borromeana que vem do Um. É uma ideia que parte da teoria do masoquismo erógeno de Freud.

O ponto de vista econômico

Nos últimos escritos de sua vida, Freud afirma que teria gostado de dedicar-se mais à perspectiva quantitativa. Isso é surpreendente porque, já a partir do Projeto, ele levava em consideração esse fator — tanto é assim que os dois axiomas sobre os quais ele ergue a sua teoria são: uma estrutura e uma quantidade. A quantidade circula na estrutura e se produz de forma contínua. A estrutura se constrói de maneira a afastar as quantidades e escoá-las para fora do sistema, no sentido de diminuir a quantidade.

Em Análise terminável e interminável[8], Freud considera três fatores preponderantes para as modificações que pode produzir o tratamento analítico: o traumatismo, a força da pulsão e as alterações do sujeito. Entre estes três fatores, o econômico é, para ele, o mais importante. A análise afeta o ser por dois tipos de fatores e ambos corrigem o fator quantitativo. Um deles consiste em atuar de maneira a que o gozo fantasmático se integre, forme parte ou se articule com as tendências do ser e não fique como uma forma de satisfação independente, um gozo autista articulado com a fantasmática masturbatória[9]. Afirma que, apesar da impossibilidade de uma cura total, já que sempre há um resto, a psicanálise permite afetar o ser na medida em que pode ter uma influência sobre a força da pulsão.

O principal mecanismo para a redução da fixação da pulsão é a mutação de gozo em amor e desejo. Nesta mutação o amor está mais perto do gozo especialmente quando é mais demanda e o desejo é mais matéria sutil. Quanto mais amor, mais alegria de viver. Quanto mais demanda, mais tortura, ciúmes e inveja. O superego ordena: Goza! E castiga por gozar.

O falasser entra em análise com um Sinthoma (++++) e chega ao final com uma variação quantitativa (++ -). Isto permite, não só saber da forma de gozar de mais um, mas também de poder fazer com isso que se sabe. O saber tem dois passos: o saber e o saber fazer com isso.

O termo mutações foi introduzido para destacar, no discurso do capitalismo, o fato de que a passagem do sujeito para o lugar de agente não se realiza dentro das leis do giro, na permutação que regula o passo de um discurso para outro. Na genética, mutação significa uma mudança na estrutura. É precisamente isso o que se deseja destacar. A mutação não carece de consequências.

Mutações é o termo que prefere Miller, já que aponta para o real. Transformação e metamorfose – usados nas traduções de Freud – incluem a ideia de forma, portanto, algo fora do real, que fica por fora do gozo do puro corpo, que é como se apresenta o real na clínica. Em seu curso Sutilezas analíticas, dedica um capítulo para trabalhar a necessidade de incluir as mudanças do gozo através da noção de mutações[10]. Optar por essa perspectiva nos leva a pensar, por um lado, que nada é sem gozo e, por outro, que há níveis de gozo e que, na constituição do falasser, existem acontecimentos de corpo com grandes mutações de gozo. Estamos diante de um novo estatuto do corpo.

[1] J. Lacan, “Proposição de 9 de outubro de 1967”, em: Outros Escritos, Rio de janeiro, Zahar 2003, p. 252.
[2] Ibíd., p.254
[3] Ibíd., p.266.
[4] J. Lacan, O Seminário, livro 19, … ou pior, Rio de Janeiro, Zahar, 2012, p. 123.
[5] J. Lacan, “Proposição de 9 de outubro de 1967”, em: Outros Escritos, Rio de janeiro, Zahar 2003, p. 256.
[6] Ibíd., p.257.
[7] J.-A. Miller, Opção Lacaniana 65, São Paulo, 2013. (Révue de la Cause Freudienne 49 como L’obscure de la jouissense).
[8] S. Freud, “Análise terminável e interminável“, em: Em: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas – Vol. XII – Imago Editora, Rio de Janeiro, 1969.
[9]  S. Freud, “Contribuições a um debate sobre a masturbação” – Em: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas – Vol. XII – Imago Editora, Rio de Janeiro, 1969.
[10] J.-A. Miller, “Mutaciones de goce”, en: Sutilezas analíticas, Buenos Aires, Paidós, 2011, Cap. XI..

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