Entrevista a Alejandra Koreck*

Entrevista a Alejandra Koreck*

Graciela Allende. EOL  Beatriz García Moreno. NEL

LXXI Olá Alejandra, você foi uma grande colaboradora, com sua arte, em Lacan XXI e por isso nos interessamos,  nesta nova rubrica de Psicanálise e Arte, que nos diga um pouco de algumas ideias sobre seu processo criativo.

AK—Olá! Para mim sempre foi de grande alegria poder colaborar com a publicação e me entusiasma que tenham  incluído esta nova rubrica.

Meu processo de trabalho, em geral, começa a partir de um conceito ou de uma imagem. Pode me ocorrer a qualquer momento, caminhando, lendo, a partir de uma conversação, uma exposição de arte, um sonho… Anoto ideias e esboços em um caderno.

Depois vem uma fase de reunião de material, de expansão e pouco a pouco algo vai se precipitando. A etapa de experimentação é a que mais me interessa. Incorporo a casualidade das eventualidades no processo e me deixo desviar pelas surpresas do material ou da técnica. É nesse momento em que é preciso abandonar a intenção e prestar atenção ao que sucede ali.

LXXISeria possível dizer que você incorpora a contingência até que algo se precipite. Como seria?

AKPosso comentar um exempo: o projeto “Wen” que iniciei há cinco anos e ainda segue em  aberto. Começo a trabalhar a partir da linguagem textura, usando a escritura como objeto. Um dia, participo de uma conversa de arte e pedem exemplos de “infraleve”. Me ocorreu o rastro do dedo na tela do celular, usando a escritura swipe. Naquela semana, estava lendo “Lituraterra” para um seminário e então penso em passar da escritura alfabética à linha, através da tecnologia swipe e gerar uma nova textura/trama. Escolho o poema de S. Beckett “Como dizer” pela sua relação ao conceito do indizível e o traduzo/transcrevo? em linhas. Faço vários testes: fotos das telas com distintas pegadas dos dedos; transfiro esses traços para distintos papéis, à tela de pintura, com tintas, cola, aquarelas; usando pincéis, marcadores, fitas, fios. Finalmente, decido imprimir um teclado muito delicado no papel canson,  usar papel vegetal bem fino para superpor várias folhas, e tinta chinesa. E assim me surgem distintas perguntas na relação entre o texto e a imagem (gestos-traços): o que fica do poema original?; o que acontece nessa passagem, o que se perde, o que se traduz?; o que acontece com os intervalos, com o ritmo nessa textura?;  são gerados relevos?

Não sei como chamar este projeto. Começo a ler “La urdimbre y la trama[1]” de François Jullien e encontro a palavra “Wen” que em chinês significa texto, cultura, civilização, ideograma e está etimologicamente composta por um cruzamento de traços. Eu gosto.

Nomeio uma série de trabalhos desse trajeto “Swiping Beckett” e isto me empuxa, sem me dar conta, à caligrafia experimental. E posso situar o projeto seguinte “Lo estranjero[2]” como um eco de “Wen”.

LXXI Quer dizer que a pergunta se abre na hiância entre o texto e a imagen e que sua linha de leitura de textos também te inspira? Mas, como foi o início, ou, como a relação entre psicanálise e arte atravessou sua vida?

AKSim; e o que vou lendo, tanto de psicanálise, como de outros campos, também se faz presente em meu proceso.

A relação entre psicanálise e arte foi habitando e animando minha vida cada vez mais.

Ainda que eu tenha tido breves aproximações à arte na infância e juventude, a decisão de levá-la a sério surgiu graças à análise. Fui aceitando que o sinthome, para mim, vai se tecendo com psicanálise e arte.

De algum modo, faço malabares para poder dedicar um tempo à prática artística, tendo tanto por fazer em relação à psicanálise e à Escola. Por isso, encontro mais tranquilidade para trabalhar no ateliê durantes os meses de verão e recorro a laboratórios intensivos de clínica de obra e workshops de determinadas técnicas.

Fico feliz com as propostas de trabalho em que ambos se articulam, quer sejam jornadas, publicações, conversações. Lembro que para as XXV Jornadas da EOL “Hiperconectados” (2016), organizamos “Tex(t)ere”, uma instalação têxtil interativa com os participantes.

Também fiz parte do Ateneo “Arte y Psicoanálisis[3]” do ICdeBA-CICBA (2018-19), cuja responsável foi Andrea Zelaya e os assessores, Eduardo Médici e José Luis Lucchesi.

LXXI Há pouco você dizia que a relação entre seu fazer artístico e a psicanálise se deu graças a sua análise. Poderia acrescentar algo mais sobre esse tecido entre psicanálise e arte que precipita no sinthome?

AKEm análise, pude ler certos efeitos da prática artística, particularmente em momentos de luto e então me encontrei frente a uma escolha forçada. Não tinha outra opção além da de seguir com este afazer, do modo que me fosse possível, deixando que a contingência o atravessasse.

E, pouco a pouco, a colagem e a caligrafia experimental foram se esclarecendo como os meios para armar algo, para inventar.

Em alguns casos, a prática em arte me dá recursos que se colocam em jogo no ato analítico. E, ao mesmo tempo, questões de psicanálise e de minha formação analítica estão muito presentes e se enodam a minha experiência artística.

O que Lacan diz dos artistas em relação ao sinthome, me impulsiona a seguir investigando distintos referenciais. Agora comecei a ler autores sobre dança contemporênea e performance que me dão fios para seguir pensando. Por exemplo, Marie Bardet que explora o improviso na dança e retoma os conceitos de trajeto e o aracnídeo de Fernand Deligny. E Mette Edvardsen que situa a coreografia como escritura; se pergunta onde o texto tem lugar, como o escrito se vincula com o corpo no tempo e no espaço.

LXXI Poderia nos dar uma ideia de como você percebe o fazer com o vazio?

AKBom, isso não é fácil de responder, mas localizo de maneira mais evidente nos trabalhos que surgem da linguagem textura,  do indizível. É a tentativa de traçar uma borda a “esse silêncio sem memória de palavras; que está vazio e sem promessas”, como diz Clarice Lispector. É manipular a grafia da linguagem e me animar a experimentar agora também com a sonoridade.

E também está presente ao escolher a colagem, que inclui o corte, o fragmento, o detalhe; colocando em jogo o vazio. É interesante que Lacan o tome como referência quando introduz o desejo do ensinante no Seminário X.

LXXI Gostaria de nos falar de algum traço singular que toma forma em sua obra?

AKSem me assegurar muito em determinados aspectos formais, busco, de modo insistente, diferentes materialidades (papéis, telas, ráfia sintética, fios, tintas; escritura alfabética, Braille, swipe) e técnicas (colagem, rascunho, transferência, sobreescritura, caligrafia experimental) para seguir tratando um conceito. E isto, muitas vezes, me faz forçar os materiais e as técnicas até o limite do possível.

LXXI Muito obrigada Alejandra Koreck! Valorizamos sua arte e o compartilhamento do seu saber-fazer com Lacan XXI.

Tradução: Daniela N Araujo

 


 * Alejandra Koreck é psicanalista membro da EOL e AMP, médica psiquiatra e artista visual. Trabalha nos campos de arte em papel, livro de artista, arte têxtil e colagem. Participou em exposições nacionais e internacionais, tais como: International Collage Art Exhibition, Galeria Retroavangarda, Varsóvia (2020); The Schwitters’ Army Collection of Collage Art, MERZ Gallery, Escócia (2019). Seus trabalhos receberam menções e foram publicados, entre outros, em: The Hand Magazine, Issue 23, USA e Cut Me Up Magazine, Issue 3, USA (2019).
[1] A urdidura e a trama.
[2] O estrangeiro.
[3] Arte e Psicanálise.

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