Isto é amor? Seu signo em Psicanálise

Isto é amor? Seu signo em Psicanálise

Marta Goldenberg- EOL/AMP

Desde que Romeu e Julieta tramaram as histórias de amor mais complexas e impossíveis com a dificuldade de encontrar os amantes em vida, o encontro transformava-se em tortuoso e suas vidas se iam nisso. Hoje a aposta se realiza por Tinder, zona-de-encontros, sozinhos e sozinhas, entre outros e a ausência do encontro físico deixou de ser um impedimento.

Poderíamos localizar um movimento que iria da Idade Média, Discurso do Amo, a nossa época: Discurso Capitalista, o qual deixa de lado as coisas do amor e se caracteriza por rechaçar a castração.1

“Faz tempo que não se fala mais disso, do amor”2, diz Lacan neste seminário que articula as coisas do amor. Localizo no seminário “Mais Ainda ”e no texto “Falo para as Paredes” em que ambos conversam sobre temas como o suposto saber, o inconsciente, onde claramente J.Lacan não fala ao outro senão às paredes, onde joga com o significante amor, amour…a-mur, e os muros-paredes, paredes que envolvem um vazio, um buraco que aloja sua razão de ser: o objeto “a”.

É no Seminário Mais Ainda onde se pode encontrar – como anuncia a lógica de Port-Royal – a premissa válida: sobre o amor. E aqui diz: “o amor é signo”.

Signo de amor

O amor aponta ao efeito sujeito, à contingência como diz em seus versos Arthur Rimbaud, poeta amaldiçoado pelo incompreendido, um boêmio e que em sua vida curta – 37 anos- escreve aos seus 20 : “Por uma razão”3, amante e companheiro de Paul Verlaine onze anos mais velho que ele, a quem dedicava seus versos.

Eles juntos escreveram poemas, brigavam e se reconciliavam, poderíamos dizer: um casal. Rimbaud buscando sua voz, escreve “Por uma Razão”, onde se repete à maneira de estribilho: um novo amor, tratando de transmitir que todo amor é produto da contingência, e é neste texto, Mais Ainda, como nos transmite J.Lacan que o amor é signo, e que há uma escansão, um lugar que reconhece que se muda de discurso, que já não iria pela via do sentido/razão, senão que aqui podemos localizar nesta escansão: a posição do analista no discurso analítico.

Esta mudança de discurso, isto que emerge em uma batida de tambor no dizer da poesia de Rimbaud, é um ato, o qual conjuga o dizer e o fazer, isso aí, cai. Cessa de não. Acontece ali, é um dizer que se escreve.

O signo do amor é muito mais que a prova de amor, a prova sempre passa pelo sacrifício do que se tem, é sacrificar o nada que se tem, enquanto o signo do amor é um nado que se seca, que decai e que se apaga se não se trata com toda cautela e não se testemunha todas as considerações. O amor depende dos signos do Outro, e ali localizamos a experiência analítica e seu agente no discurso analítico.

Nestes tempos de laços difíceis de estabelecer, de sujeitos embriagados de um gozo autista, podemos localizar a diferença entre amor e desejo, a relação com o Outro; é o desejo que se subtrai desta relação com o Outro, o desejo tem mais relação com algo no Outro. O desejo envolve um elemento conhecido pelo Outro, há algo que se aninha no Outro, há um resto da Coisa no Outro, um vacúolo (uma zona) de gozo. O parlêtre acredita que no Outro há o que a ele lhe falta ou o completaria.

Podemos localizar aí os paradoxos e as encruzilhadas do amor no momento de dar algo que se tem em termos de não ter. Encruzilhadas à luz dos atos ou passagens ao ato que se exercem em nome do amor querendo capturar no Outro, essa pequena diferença que não se suporta com consequências tais como o feminicídio, o suicídio ou filicídio e que, às vezes, em nome do amor se mata. J-A Miller esclarece que o que pertence ao registro do amor não responde adequadamente ao registro do gozo, ou o que prevalece no gozo do UM, não está de acordo com o que o amor requer do Outro.4

O discurso analítico como disse J.Lacan, promete introduzir algo novo, esse algo novo é transcendente e esta palavra há que toma-la com o mesmo signo que na matemática, e não é por nada que tem o nome de transferência. O que esclarece é que o discurso analítico não pode sustentar-se com um só, e que é uma sorte, disse J.Lacan, não estar sozinho na experiência analítica.

O que se leva em conta do amor não é o sentido, senão precisamente o signo e é aí onde está todo o drama.

Tomemos a pergunta  de Lacan em Mais Ainda, pergunta que interroga a época: não é acaso no enfrentamento a esta impossibilidade do não-há como se põe à prova o amor? O amor só pode realizar a valentia diante do fatal destino, a solidão de ser falante e o não há relação sexual.

O amor é um fato de discurso, sustentado pelo corpo a corpo, um corpo esvaziado de seus próprios fantasma e sintoma, um corpo (o analista) decidido a escutar o parlêtre  que sofre, ao que está perdido, ao que a paixão cega, ao que está entregue ao excesso.

J.Lacan pode concebê-lo como um acontecimento do dizer, é na experiência analítica que o propomos como um espaço fértil.

Então para concluir, isto é amor? Como disse Lacan5 , ter percorrido um trecho juntos?, ser companheiros de uma experiência, termos nos encontrado aleatoriamente, e disse Lacan: “ o amor é um dizer enquanto acontecimento”, um dizer enquanto que o escrito, o que se pode ler de uma experiência analítica, ou seja, a transferência faz aí irrupção, liga-se a uma modalidade sinthomatica em direção à vida, o sintoma que jogava para baixo, que desvitalizava, se escreve, isto faz seu signo na transferência, é a entrada de algo novo e, possivelmente, mais digno como a vida mesma vivida a partir de um percurso decidido de análise. Uma vida mais digna, esse é seu signo.

 

Tradução: Maria Cristina Vignoli

Notas
1 Lacan,J. Hablo a las Paredes (1971) Paidós, Buenos Aires, 2012. P.100
2 Lacan,J, El Seminario. Libro 20.Aún. (1972-1973) Paidós, Barcelona-Buenos Aires
3 Rimbaud, Arthur. A una razón
4 Miller,J-A.Los signos del goce. Paidós. Buenos Aires.p.374
5 Lacan,J. Seminario 21 “Los desengañados se engañan o los nombres del padre”.Clase 13-11 1973.inédito.

Comentários estão fechados.