Para Dar o que não se tem…

Para Dar o que não se tem…

Pablo Reyes*

A definição do amor poderia levar-nos a extensos tratados, como o de Pierre Rousselot1. Em contraposição, Lacan preferiu um estilo aforístico para peneirar aquilo que está em jogo no amor, deixando a tarefa de decifrar os alicerces que sustentam seus enunciados. O aforismo “o amor é dar o que não se tem”2 é certamente um bom exemplo disto, as referências são poucas e refletem bem o uso de algo já sabido. Por isto, este artigo busca decifrar os alicerces desta frase em dois tempos: explicitar a origem do dom de amor e explicitar como se produz sua “oferta” ao ser amado.

A metáfora paterna na origem do dom

O dom do amor provém da estruturação edípica do desejo, resultante do encontro do corpo com a linguagem. Entre os seres falantes, as necessidades não se reduzem ao funcionamento do instinto, pois se mostram alteradas pela linguagem.3 A mãe simbólica institui a primeira inscrição significante que opera sob a lógica de presença e ausência.4 Esta alternância introduz o enigma de seu desejo, ao que a criança irá responder com a identificação ao objeto de este desejo. A identificação fálica é uma resposta à pergunta quem sou para o Outro, é aí onde a encruzilhada se apresenta: “ser ou não ser, to be or not to be, o falo”.5

O produto dos primeiros intercâmbios simbólicos irão produzir os modos de falar que impulsionarão a demanda da criança e com ele sua primeira interpretação do amor. O amor se dirige ao ser e não ao objeto, e se bem a criança o sabe, isto “não quer dizer que a criança tenha feito filosofia do amor, que distinga, por exemplo, o amor e o desejo.”6

Assim, a incidência do objeto de dom não é positiva, não é um objeto material que se dá, senão que se faz visível pela frustração mesma que introduz sua falta. O “descuido” da mãe introduz a criança no amor por uma “falta de amor”, quer dizer, por aquilo que no cuidado em que a mãe dava “a mais” sem se dar conta: fazer da criança o objeto de desejo ou de amor.

É esta identificação ao falo – o objeto dom que falta à mãe –, a qual a criança deve sacrificar, para logo o fazer circular como objeto de privação  e castração no segundo e terceiro tempo do Édipo. O objeto fálico circulará como objeto de dom em toda demanda ao Outro, mas se manterá como “intangível” e “invisível”, circula como falta e que, ao final da metáfora paterna, nada tem.7

Do assinalado se detém três aspectos. Em primeiro lugar, na dialética edípica parte-se do sendo amados, para logo abandonar essa posição e tornar-se amantes: de ser o falo a buscar quem o tem. Em segundo lugar, pedir o falo no amor, o objeto de dom, introduz a dimensão da “outra coisa”, que se infiltra na demanda de amor como uma falta. Em terceiro lugar, fica pendente como mobilizar essa falta para “dá-la ao outro” no amor.

A jovem homossexual como paradigma da metáfora do amor

Em A transferência, o problema do amor é abordado na dialética do amado e do amante.8 O amante, erastes, se define por estar em falta de algo que desconhece e quer. O amado, erôménos, guarda um objeto que nem ele nem o outro não tem acesso e que ama nele mais que a ele mesmo.

Deste modo, a metáfora do amor não se reduz ao encontro de dois seres, salvo que seu suporte é uma metáfora. Ela implica passar da posição de erôménos a erastes, graças à substituição da primeira posição pela segunda.9 Dito de outro modo, amo ao outro a partir daquilo que me constituiu como amável e que, pelo complexo de Édipo, não sou nem o tenho.

O comentário de Lacan sobre o caso da jovem homossexual é muito ilustrativo.10 Durante sua infância quis ser amada por seu pai pedindo-lhe um filho que nunca chegou. Este filho ocupa o lugar simbólico do falo, que marca sua falta como sujeito desejante. Mais adiante em sua vida, esta carência desempenhará um papel metafórico em seu amor pela Dama. A jovem se comporta com ela como um cavalheiro de brilhante armadura nas coordenadas do amor cortês. Está disposta a dar tudo que tem e não tem pelo ser amado. Nesta posição se produz a inversão da situação infantil, já que agora é a jovem homossexual a que pode dar aquilo que não teve na infância.

Deste modo, ainda que no encontro amoroso possamos pensar na existência de um vínculo entre os dois seres humanos, os amantes, não há um encontro real de um sujeito com outro sujeito. Em vez disso, na relação amorosa existe uma relação do sujeito com o objeto e inclusive, de maneira mais radical, de um sujeito com uma falta.11 O objeto em questão não é outro senão que o objeto da castração, cuja perda inaugura a entrada do sujeito à ordem significante.

O ser amado se situa no lugar do objeto do desejo, mas sendo uma sublimação deste. Freud o indica ao assinalar que o objeto de amor é um objeto cuja finalidade sexual está inibida, ou mais exatamente que é o objeto de desejo mais oculto e substituído pelo Ideal do eu.12

Assim, ainda que no encontro amoroso possa existir encontro de duas faltas, elas não são complementares. Existe no amor um encontro ilusório, já que o sujeito não conhece o objeto a que está na base do investimento libidinal do outro amado. Portanto, não se ama diretamente à pessoa, se ama com o que não se tem, e isto se oferece ao outro convertendo-o em suporte da própria castração.

 

* Asociado Nel-Santiago
Tradução: Maria Cristina Vignoli

1 Rousselot,P.,Pour l’histoire du problème de l’amour au moyen âge, Vrin, Paris, 1981.
2 Lacan,J.,El Seminario, libro 8, La transferencia (1960-1961). Paidós, Buenos Aires, 2003, p.45.
3 Lacan,J., El Seminario, libro 5, Las formaciones del Inconsciente(1957-1958), Paidós, Buenos Aires, 1999, p.389-sq.
4 Ibid., p. 194-sq.
6 Lacan, J., El Seminario, libro 4, La relación de objeto (1956-1957) ,Paidós, Buenos Aires, 1995, p.183.
7 Lacan, J., El Seminario, libro6, El deseo y su interpretación (1959-1960), Paidós, Buenos Aires, 2011, p. 381-sq.
8 Lacan, J., El Seminario, libro 8, La transferencia (1960-1961), op.cit, p.45-sq
9 Ibid., p. 51.
10 Lacan, J., El Seminario, libro 10, La angustia (1963-1964) Paidós, Buenos Aires, 2004, p. 122-sq.
11 Lacan, J., El Seminario, libro 8, La transferencia (1960-1961), op.cit, p. 439
12 Freud,S., “Psicología de las masas y análisis del yo” (1921), Obras Completas, v.XVIII. Amorrortu, Buenos Aires, 1986, p. 105.

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