Uma invenção em PAUSA1

Uma invenção em PAUSA1

Dolores Amden, Fernanda Mailliat, Nicolás Mascialino*

Observo que, como sempre, os casos de urgencia me ocupavam, enquanto escrevia isto. Escrevia, entretanto, na medida em que creio dever fazê-lo, para estar em dia com os casos, para fazer com eles par[2].

Com o início da pandemia e a resolução de implementar o isolamento social preventivo obrigatório por parte das autoridades sanitárias locais, tivemos que fechar nossas portas pela primeira vez e deixar uma pausa inquietante nos tratamentos que estávamos mantendo até o momento, assim como a possibilidade de assumir novas consultas.

Dentro da equipe de PAUSA não tardou fazer-se escutar a pergunta: Que fazer diante deste momento? O dispositivo entrou em urgência quando nossas rotinas de trabalho, a atenção presencial, já não funcionavam diante de uma crise de ordem global. Como poder estar de volta de nossa própria urgência no momento em que o próprio dispositivo se via ameaçado?

Se fizeram mais evidentes duas coordenadas a levar em conta para pensar as urgências: o contexto de crise e o tipo de abordagem clínica que propomos a quem nos consulta. Este devia modificar-se. A crise, no dizer de Guy Briole, “é um significante que ressoa nos três registros onde encontra como declinar-se: colapso do simbólico, emergência do real sem lei ou, ainda, fissura do imaginário, com uma impossibilidade de poder sustentar-se no espelho da época”[3]. A crise sanitária irrompia nas formas que tínhamos de entendê-la classicamente, já que a própria prática entrava em crise com esse panorama de corpos confinados.

A implementação de um dispositivo virtual, o PAUSA online, não foi sem repensar que tipo de laço iríamos ter com a cidade nesta conjuntura. Ao mesmo tempo, tínhamos presente que a crise generalizada não deveria esmagar a orientação de transformar toda urgência em uma urgência subjetiva.

Clínica de admissão

A seguinte pergunta se impôs: Como fazer par com essas demandas, para elevá-las à categoria de caso? De caso de urgência, preservando o impossível que se aninha entre o sujeito e o analista. Foi assim como lançamos nossa oferta à cidade e as ligações não demoraram a chegar.

Um entrevista de admissão não é uma instância burocrática, é um encontro que abre uma dimensão temporal onde é necessário chegar a uma conclusão que resulte do percurso de dois tempos lógicos anteriores. Em “Os tempos lógicos e a asserção de certeza antecipada. Um novo sofisma”, Lacan destaca os movimentos suspensos e hesitações como chaves para que desse segundo momento – momento de compreender – decante logicamente numa conclusão. A mesma entrevista torna-se uma pausa ativa que aposta para desdobrar um tempo de compreender, apontando o que se tornou insuportável para o sujeito. É, em si mesmo, um processo que pode durar uma ou várias entrevistas de acordo com a particularidade do caso.

O analista na urgência, já a partir da instância clínica das entrevistas de admissão, interroga o real, enquadra-o a partir da suposição da existência do inconsciente e do gozo que este comporta. Distinguimos duas dimensões na admissão: uma que se ocupa dos ditos de quem consulta para dar um contexto à urgência, para fazê-la falar; e outra que contempla as possibilidades e limitações do próprio dispositivo.

Nesse novo marco, que implicou a passagem dos consultórios para as telas, tivemos que reinventar o invento PAUSA online, já que o dispositivo não poderia simplesmente ser replicado em um novo formato. Estar privado dos detalhes que a presença dos corpos nos fornece implicou um obstáculo ao momento de captar a complexidade de algumas apresentações. Como calcular o alcance de uma vacilação da fantasia, de uma irrupção de gozo, da iminência de um desencadeamento ou da gravidade de um transbordamento de angústia, se não contamos com o encontro presencial com quem nos consulta? Foi por isso que acrescentamos uma instância necessária ao processo de retificação da demanda: as pré-admissões.

Elas tem a forma de um telefonema prévio à entrevista virtual com um admissor onde, sem demora, se dá lugar à palavra daquele que se encontra em urgência. É a afinação da escuta para dar lugar ou não à admissão. Porta de entrada ao tratamento em PAUSA.

Entendemos a pré-admissão como a extensão do momento de ver. O prelúdio da admissão que nos permite captar o primeiro momento em que a urgência se dirige a um Outro. Pré-admissão, admissão e tratamento inauguram uma nova versão da clínica entre várias, que nos casos de urgência constitui uma ferramenta fundamental.

Apostar na transferência

“A urgência parece como uma ruptura na linha do tempo, tira o sujeito de suas rotinas e o força a elaborar uma nova relação com o real”[4]. Em alguns casos, essa ruptura produz uma descontinuidade na vida do sujeito que precipita passagens ao ato, actings out e transbordamentos de angústia, entre outras apresentações clínicas. O chamado inicial à PAUSA é um pedido que em si mesmo abre a dimensão de um Outro e, por sua vez, inaugura o processo de dar-lhe forma.

As pré-admissões, como tempo intermediário entre o pedido de tratamento e o encontro com o admissor, revelaram, em alguns casos, ter um efeito terapêutico. A escuta propunha uma primeira edição das falas do consulente, injetando o germe da transferência que se pretende construir. A urgência é a demanda do analisante em potência, logicamente anterior ao estabelecimento da transferência[5], daí nossa aposta.

PAUSA online se constituiu não só como um lugar de escuta, mas também como um lugar de resposta, onde o primeiro dizer sofredor de uma consulta tem a possibilidade de assumir a forma de uma pergunta singular.

Mais do que nunca, acreditamos que esta frase é mais uma vez atual: “Pelo menos agora podemos nos contentar com o fato de que enquanto durar um traço do que estabelecemos, haverá um psicanalista para responder a certas urgências subjetivas”[6]

 

Tradução: Ivone Maia de Mello 
*Integrantes da equipe de admissão de PAUSA

[1] Psicanálise Aplicada às Urgências Subjetivas na Atualidade. PAUSA é um centro de atenção psicanalítica que desde 2005 oferece tratamentos breves orientados à resolução das urgências subjetivas de nossa época.
[2] LACAN, J. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
[3] Briole, G., “El trauma: momento de crisis por excelencia”, Revista El psicoanálisis, N° 27, España, ELP, 2015.
[4] Seldes, R., La urgencia dicha, Buenos Aires, Editorial Diva, 2019.
[5] Miller, J.-A., “El esp de un laps”, in: El ultimísimo Lacan, Buenos Aires, Paidós, 2013, p. 19.
[6] Lacan, J., “Do sujeito enfim em questão” in: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: 1998. p. 229.

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