A Escola, uma modalidade de amor

A Escola, uma modalidade de amor

Frank Loreto – Associado NEL-Caracas

A Escola proposta por Lacan em seu Ato de Fundação é uma experiência inaugural, enquanto a aposta é consentir em nossas análises até as suas últimas consequências. Como sabem, isso tem algumas implicações, não que se possam enumerá-las, mas, ao menos, podemos trabalhá-las em conjunto.

Uma dessas é a de passar do saber suposto, saber do inconsciente, ao saber exposto, saber assegurado. É a passagem do amor ao saber ao desejo de saber. É o que significa a dessuposição, não que o saber não exista, mas que esse saber se exponha ao Outro, do gozo Um ao Outro. E nessa transmissão sustentar o ensino da psicanálise.[1]

Ainda que para o ensino da psicanálise se requer do analista não estar no lugar de “eu sei tudo”, senão num lugar que permita o trabalho de outros, porque o que propôs Lacan para sua Escola foi trabalhar pela reconquista do Campo Freudiano.

Do que se trata é como relaciono isso com meu gozo para sustentar a causa analítica. Desse modo, a experiência de Escola nos orienta em torno da eleição de sustentar no vazio, para se enfrentar com seu próprio desejo, como desejo do Outro…ao desser. Logo, o passe dá conta não somente do que ocorreu em uma análise, mas do que ali teve lugar, para apontar a própria responsabilidade na Escola.[2]

Isso implica uma eleição forçada, do trabalho de transferência à transferência de trabalho. Encontramo-nos com a causa de nosso desejo, mas trabalharemos pela causa analítica. Suponho que aqui é possível evocar que o amor permite condescender o gozo ao desejo.

Mas de qual amor se trata quando falamos do analista e da Escola-sujeito? Precisamos um detalhe: não se trata do amor de transferência, apesar de parecerem fenomenologicamente distintos por se tratarem da torção da experiência analítica à do analisante-grupo analítico, na estrutura, porém, elas partem do mesmo lugar.[3]

Essa transferência recíproca pode ser entendida inclusive como uma orientação que incomoda, uma que não é somente a referência comum a alguns textos ou a alguém específico, aquela fundamentada na crítica recíproca, sem acordos tácitos e sempre mais além das identificações supostas no Outro. Ademais, há que se lembrar não ter lógica se comunicar com pessoas com a mesma experiência porque “nos entenderíamos bem”, a aposta é no mal-entendido para produzir o saber …[4] para logo ser transmitido.

Nesse sentido, o da reciprocidade, creio existir uma diferença substancial com a transferência analítica. Posto que nessa última não se trata de uma experiência intersubjetiva, recíproca, mas sim de um trabalho do sujeito, com seu saber suposto do inconsciente. Mas esse saber não somente está articulado a um conjunto de significantes para produzir um saber, o saber do inconsciente é do significante, mas também enquanto se goza como resposta à não relação sexual.

Ainda que não exista a intersubjetividade entre analista e a Escola-Sujeito, existe, no entanto, o coletivo como sujeito no individual. Essa reciprocidade está orientada ao trabalho com os outros membros, e a crítica seria a seus respectivos produtos, mais além das identificações.[5]

Agora, fiz referência ao amor a partir da transferência de trabalho, creio ser importante precisar que o amor que possa existir pela Escola é um amor mais além do amor. Não é um amor narcisista de “amar ao próximo como a ti mesmo”, nem tampouco o amor simbólico agarrado na demanda do Outro, porque esses estariam suportados na função do falo.[6]

Então é uma “revalorização do amor”: o amor real seria um suplente da relação sexual. O que estaria relacionado com a sexualidade feminina enquanto essa tem uma relação especial com o Outro. “O gozo feminino sob a forma S(Ⱥ) permite uma relação com o Outro,porque é capaz de ir mais além de fazer do Outro um objeto a que lhe sirva somente para a satisfação pulsional. É mais independente da exigência pulsional.[7]

Isso me permite orientar sobre a relação entre o amor, o gozo feminino e a Escola, enquanto postulo que a diferença do grupo que segrega a quem diz não ao mutualismo, a Escola-sujeito, consente a que se possa seguir em posição de analisante com isso que não deixará de insistir e fazer cair qualquer ideal.[8]

Permitindo manter no horizonte o postulado de Raquel Cors Ulloa em seu discurso de abertura quando fazia referência a que, desde há muito tempo, temos lido “o inconsciente é a política” e, no entanto, ainda estamos nos interrogando para precisar o que entendemos por política lacaniana.[9] E ainda considerando que a finalidade de uma análise não é somente extrair um analista, poderia evocar como uma resposta inconclusiva, uma política orientada pelos arranjos com o real.

Então, eu intuo que a proposta seria trabalhar com o real, com nossa própria inconsistência e a do Outro, fazendo laço com o Outro através do amor real, mas sustentando a causa analítica como causa de desejo porque a psicanálise existiria na medida em que assumimos a responsabilidade de fazê-la existir.

 

Tradução de Gustavo Ramos da Silva

[1]  MILLER, Jacques-Alain. El banquete de los analistas. Trad. de Nora A. González. Buenos Aires: Paidós, 2018. p. 179-233.
[2]  Ibid.
[3]  BASSOLS, Miquel. La orientación en la transferencia de trabajo. Disponível on-line em: http://elpsicoanalisis.elp.org.es/numero-36/la-orientacion-es-la-transferencia-de-trabajo/
[4]  Ibid.
[5]  Ibid.
[6]  MILLER, Jacques-Alain. El partenaire-síntoma. Trad. de Dora Gladys Saroka. Buenos Aires: Paidós, 2016. p. 147-170.
[7]  Ibid.
[8]  GIRALDO, Maria Cristina. A Escola e o feminino do desejo. Testemunho de passe apresentado na XVII Jornada da ELP “Queres o que desejas? Excentricidades do desejo. Disrupções de gozo”, realizada em Barcelona em novembro de 2018. Mesa do Passe “Desejo de Escola” com interlocução de Guy Briole e Anna Aromí.
[9]  ULLOA, Raquel Cors. Mutatis Mutandis. Disponível on-line em: http://www.nel-amp.org/index.php?file=La-Escuela/Textos-institucionales/Discursos-de-los-presidentes/Discurso-presidente-entrante-2021-2023.html

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