De mulheres, de mitos e de semblantes

De mulheres, de mitos e de semblantes

Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri – EBP/AMP

Freud cria a Psicanálise em torno do trabalho clínico com as histéricas: para elas e com elas abre-se um novo saber e ele se pergunta, no decorrer de sua vida-obra, “o que quer a mulher?”. Lacan propõe que se busque “uma” mulher, mulheres pensadas uma a uma – “A mulher não existe” ele afirma.

Encontra-se na história do Ocidente, mitos que tentam falar essa coisa estranha que se chama “mulher”; estranha para os homens, estranha para as mulheres.

Para Lacan os mitos vêm da estrutura, tentativas de dizer o que não pode ser dito; como pensar um mito que tenta dar conta d’A mulher, do que seria uma pretensa essência do feminino?

Se “a mulher é a fantasia do homem”, se os mitos que dizem do feminino foram criados por homens, escritos por eles, estes adviriam da estrutura do masculino? Todo discurso é semblante e, para Miller “o ser falante está condenado ao semblante” [1], mas ele observa nas mulheres um ódio muito especial ao semblante, ao que parece, por serem mais amigas do Real [2]. Partir da posição feminina em relação aos semblantes permite entender “… de que maneira os maneja, os adota, os faz respeitar e até os fabrica” [3]. Nesse sentido, as mulheres de algum modo se acomodam aos mitos, mas enquanto não-toda.

No mundo Ocidental, particularmente rico é o mito grego da criação dos homens e d´A Mulher, relatado por Hesíodo, n’Os Trabalhos e os Dias [4] e na Teogonia [5].

A criação da mulher ocorre como efeito-castigo enviado por Zeus aos homens, criaturas de Prometeu, titã que ousou desobedecê-lo. Este artefato, de cuja criação participou todos os deuses, fruto do desejo de Zeus, é filha apenas do pai [6]. Virgem como Palas Atena, sedutora como Afrodite, introduz o sexo e divide os humanos em macho e fêmea. A condição humana, encarada como uma sucessão interminável de males instaurou-se através da mulher, que traz em si as contradições legadas a ela por cada um dos deuses. Para além destas, Pandora [7] carrega num jarro (“Caixa de Pandora”- seu dote), os males que libertos, levam a vida dos homens, ao limite do suportável.

A Bíblia Sagrada faz parte da formação dos ocidentais. No Velho Testamento Deus molda o homem do pó e tira dele uma costela, a partir da qual fabrica Eva. Esta se deixa seduzir pela serpente com a promessa de que “seriam como deuses” se desobedecessem a Deus e comessem do fruto da árvore do bem e do mal. O castigo veio enquanto expulsão do paraíso e a mulher torna-se o vetor da queda. Criada para fazer companhia ao homem, enganada pela serpente, Eva foi a causa da ruína de Adão.

O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma virgem, anunciando que ela conceberia e daria à luz o filho de Deus – ela aceita submissa, o comando divino. Com o advento do cristianismo, Deus se fez homem, mas filho de mãe virgem e concebida sem pecado original; o ideal de virgindade e pureza toma conta da humanidade. “O mistério da Virgem – que a Igreja católica utilizou sabiamente – serve para absolutizar a mulher como Outro, para representar o mistério absoluto fora do falo” [8]. No entanto, tal mistério, em seu limite, levaria a humanidade à extinção, o que faz surgir a outra, a prostituta, a degradada, aquela com a qual se pode gozar. Freud explora essa divisão em suas “Contribuições à Psicologia do Amor” [9].

Esses mitos parecem incrustados, de algum modo, no imaginário humano, com a função de velar o vazio. Os antigos gregos viam a mulher dividida nela mesma, assustadora, “o belo mau”, pleno de contradições, inocente, joguete nas mãos do pai; os judeus a viam ambiciosa, passível de ser enganada e enganar, alguém a ser vigiada; os cristãos a dividem, a virgem imaculada faz surgir a outra – já que temos a santa, que venha a prostituta.

Num mundo pós-tudo, ideais de mulher se multiplicam e se interconectam: Pandora, Eva, Maria, surgem em regime do Nome-do-Pai. Com o esgarçamento , a queda deste, quantos mais?

“Que o Nome do Pai seja um fato de sublimação, já indica que é um semblante e que a civilização se sustenta por semblantes” [10].

Diante de mitos e semblantes, tentativas de enquadramento são infrutíferas; no entanto, os ideais de mulher aparecem no decorrer das civilizações desde seus primórdios. As mulheres tornam-se semblantes dos mitos, encarnando, mascarando-se? Mitos e semblantes que cercam o feminino parecem ligar-se à estrutura mesma de “A” mulher que não existe, velando esse lugar vazio.

No Seminário XX Lacan apresenta as tábuas da sexuação [11] e descreve as fórmulas proposicionais que figuram as inscrições possíveis ao ser falante, teorizando sobre a não-relação sexual. A função do lado esquerdo: “para todo X PHI X” indica que é pela função fálica que o homem como um todo toma inscrição. Esta função se limita pela existência de um x que não passa pela castração – é a função do pai primevo – o que dá um contorno, uma direção ao ser falante que se inscreve no lado esquerdo das tábuas.

No lado direito, lado feminino, pode inscrever-se qualquer que seja ser falante, tenha ele ou não atributos de “masculinidade”. Assim, uma mulher tanto pode inscrever-se do lado masculino, quanto do lado feminino, assim como também um homem, mas ao se colocar no lado feminino será não-todo. Este lugar não admite universalidade, mas abre a opção de se colocar ou sair da posição de “para todo X PHI X” [12].

Ao se inscrever no lado masculino tem-se uma possível identificação, contorno, direção, o que não acontece a alguém que se coloca do lado feminino – sobra apenas a via da criação ao encarar a falta que se escancara e possibilita criar a partir desse lugar vazio.

Diante da elaboração lacaniana sobre a não-relação sexual, pode-se pensar o porquê de os mitos, os ideais sobre o feminino se multiplicarem: preenchem um  vazio de identificação, o vazio d´A mulher que não existe, vazio que angustia homens e mulheres.

Ao que parece, sujeitos trans podem ser colocados do lado direito das tábuas da sexuação, lugar de criação, inventando, fabricando semblantes.


 

[1]  Miller, Jacques-Alain. De la naturaliza de los semblantes. Paidós, Buenos Aires, 2018, p.10.
[2]  Miller, Idem, Ibidem, p. 125.
[3]  _________________, p. 138.
[4]  Hesíodo. Os Trabalhos e os Dias (Sec. VII A. C. – edição bilíngue). Iluminas, São Paulo, 1991.
[5]  _______. Teogonia, (Sec. VII A. C. – edição bilíngue). Iluminas, São Paulo, 1991.
[6]  Como Palas Atena e Afrodite.
[7]  Pandora “porque todos os que têm olímpia morada/ deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão …” Hesíodo.
[8]  Miller, Idem, Ibidem, p 135.
[9]  Freud, S., Contribuições à Psicologia do amor (1910), ESB, volume XI. Rio de Janeiro, Imago: 1969.
[10]  Miller, Idem, p.135.
[11]  Lacan, J. O Seminário: Livro 20: Mais Ainda (1975). Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro:, 1985, página 107.
[12]  Lacan, Idem, Ibidem, p. 107.

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