E as mulheres, o que dizem da guerra?

E as mulheres, o que dizem da guerra?

Gabriella Dupim – Coordenadora de Núcleo – EBP- Seção Nordeste

Lacan[1] ao lembrar Medeia afere que as mulheres são mais amigas do real, sendo na guerra, as mais sanguinárias dos sanguinários, nos indicando algo de um sem limites da posição de gozo feminina, para além do falo. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial e pouco se sabe a respeito. Essa revelação ressoa um pouco infamiliar se considerarmos que estamos familiarizados com a imagem de homens guerreando ao longo da história da humanidade.

Mas o que dizem as mulheres sobre a guerra? Elas nos contam sobre o que sentiram não só na linha de frente, mas entre centro e ausência: de suas façanhas heroicas, do horror, do medo de matar, muitas vezes maior que o de morrer, da beleza, da maternidade e do amor. Tentam dizer do feminino, infamiliar, ao mesmo tempo íntimo, que nada se sabe, mas se deixam afetar, fazendo-a Outra para si mesma. Do lado não-todo das fórmulas da sexuação[2] não há universal, e portanto cada falasser só pode dizer de sua experiência com esse gozo Outro uma a uma.

É precisamente a partir de testemunhos indizíveis, recolhidos pela escritora e jornalista bielorussa Svetlana Aleksiévitch[3], que nos deixamos ensinar sobre o feminino. O silêncio das editoras e a recusa de publicar sobre o infamiliar da guerra revelam o medo e o tabu de se desvendar o desconhecido. É terrível lembrar, mas é terrível também não lembrar, assegura uma sobrevivente.

Lutei no front, conta uma sargenta que voltou da guerra aos 21 anos com uma lesão grave no ouvido e a cabeça branca, trazendo no corpo as marcas de um real inassimilável. Tinha pernas bonitas e medo de perdê-las. Quando voltou a mãe lhe disse que rezava para que ela voltasse inteira, pois se tivesse ficado mutilada era melhor que a matassem. Para ela, um homem perder a perna não era tão terrível, pois ele seria um herói do mesmo jeito, enquanto uma moça jovem, já tinha o destino decidido. Revelando que do ponto de vista singular do sintoma, ser bela para um homem era um dos nomes[4] do feminino.

Seria a beleza um semblante do feminino? Para Lacan[5], o belo funciona como uma barreira ante ao horror da coisa, pois ao mesmo tempo em que se aproxima dela, mantém-na separada. Uma moça confessa que o único medo que tinha era de ficar feia depois da morte, tinha medo de que um projétil a quebrasse em pedaços, assim como os muitos pedaços de corpos que ela recolhera na guerra. Outra, conta que se enfeitava mesmo durante o combate, que inventava penduricalhos coloridos, fazia anéis e brincos brilhantes com latinhas, mas que o medo de envelhecer era maior do que o da guerra. Achava que sem ser mulher não era possível sobreviver. Uma cirurgiã dizia sorrir o tempo inteiro, pois uma mulher devia iluminar. E assim, ela fazia com cada paciente ao leito de morte, sorria e dizia que o amava, pois o amor preserva, dá forças para querer viver.

Para ser mãe, não deixo de ser mulher, eis a frase de Molière tomada por Lacan[6] para nos indicar que a maternidade a divide pela via do desejo, evidenciando o não-todo da posição feminina. Uma ex combatente conta que tinha entendido porque para mulher era mais insuportável e angustiante matar, pois ela dá a vida, presenteia, carrega-a por muito tempo dentro de si, e depois a cria. Outra fala sobre a experiência de matar e da dificuldade de ter de decidir se apertava ou não o gatilho. Depois que atirou começou a chorar e a tremer sentiu muito medo, um horror indizível. Odiar e matar não eram coisas de mulher, era preciso se convencer disso para estar na guerra. Outra ainda sentia-se tão culpada de ter matado tanta gente que fez da contingência de ter gerado uma filha com deficiência um sintoma de punição.

Slevana deu voz com seu livro, não só ao dizer das mulheres sobre a guerra, mas também aos ditos que apareciam, sobretudo, nos silêncios. Confidencia que foi se transformando cada vez mais em um grande ouvido, voltado para outra pessoa e que aprendeu a ler a voz, assim como fazem os analistas. Interessava-se em ouvir não os grandes feitos, nem o heroísmo, que muitas vezes os maridos faziam as esposas decorar, mas aquilo que era pequeno e humano. Algumas se recusavam a encontrá-la, não podiam lembrar, pois era demasiado doloroso. Uma delas disse ao telefone que enquanto lutava na guerra não se sentiu mulher, não menstruava e não tinha desejo feminino. Quando a guerra acabou e seu futuro marido lhe pediu em casamento: queria chorar, gritar, sentiu-se insultada. Como alguém podia querer se casar no meio da fuligem, da terra arrasada. Primeiro era preciso que ele a fizesse uma mulher, flertasse com ela, lhe presenteasse com flores, e dissesse palavras bonitas.

Ao escutar mais de duzentas mulheres Svetlana tenta escrever sobre essa experiência de solidão própria ao feminino de quem volta da guerra. Trata-se de um exílio semelhante ao de alguém que tivesse vindo de outro planeta ou do além, que ressoa no corpo. Há um impossível de dizer, que mesmo que se tente narrar, e se queira entender há um limite que escapa as significações e a articulação significante. Era como se não fosse eu, conta com perplexidade uma mulher sobre o encontro com o Unheimliche[7].


 

[1]  Lacan, J. (1998). A juventude de Gide. In V. Ribeiro (Trad.), Escritos (p. 749-775). Rio de Janeiro, RJ: Zahar. Publicado originalmente em 1958.
[2]  Lacan, J.  O Seminário, livro 20: mais ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985 [1972-1973].
[3]  Aleksiévitch, S. A guerra não tem rosto de mulher. 9. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
[4]  Fuentes, M-J. S. As mulheres e seus nomes: Lacan e o feminino. Belo Horizonte: Scriptum, 2009.
[5]  Lacan, J.  O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008 [1959-1960].
[6]  Lacan, J.  O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999 [1957-1958].
[7]  Freud, S. O infamiliar [Das Unheimliche] – Edição comemorativa bilíngue (1919-2019): Seguido de O homem da areia de E. T. A. Hoffmann. São Paulo: Ed. Autêntica, 2019.

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