Editorial Lacan 21 nº11

Editorial Lacan 21 nº11

Editorial

Iordan Gurgel – EBP/AMP

Caro leitor,

Ao contrário das edições  anteriores que definiam um tema apriori, este número de LACAN XXI  não seguiu esta proposta e abriu o leque para escolha livre dos autores. Assim, vemos desde os textos orientadores opções temáticas variáveis que começam com a atualidade do “A mulher não existe” com o texto de Guy Briole[1], Porque sou uma mulher! – que finaliza com a referencia ao “amor civilizado” do Lacan do Seminário 21; o de Graciela Brodsky que repercute sua participação no XI ENAPOL com reflexões sobre a “Homossexualidade feminina: uma questão de amor”; o de Cristiane Grillo e Jesus Santiago que concerne a “Sexuação e identidade de gênero: O analista face as mutações de gênero” e, finalmente, com Raquel Cors Ulloa “O que finalmente da pessoa que se foi… enquanto cada Um se analisou” –  que evoca o indizível dos  fins de análise, esvaziados de significação fálica.

Na rubrica sobre A experiencia analítica hoje os membros de Escola abordam o feminino, a sexuação, a questão trans, os novos sintomas e a supervisão. Com, “De mulheres, de mitos e de semblantes”, Maria Bernadette Pitteri diz: ‘ao que parece, sujeitos trans podem ser colocados do lado direito das tábuas da sexuação, lugar de criação, fabricando semblantes’; Eliane Costa Dias com: “O sujeito trans e a psicanálise: uma parceria possível”, faz uma diferença entre o fenômeno trans, efeito dos discursos da época, e o sujeito trans, ser falante que sofre por não se acomodar ao corpo e à identidade que lhe foram designados em seu nascimento. Já Paola Salinas com o “ O indizível, o ilimitado e o Queer” nos convoca a não recuar frente à discussão das identidades sexuais. Na sequencia, Rogério Barros aborda os “Novos sintomas, ainda o mal-estar”, que se evidenciam, não pela falta, mas pelo excesso, apontando para uma nova clínica; e Luiz Francisco Camargo com  “A aporia do ato em supervisão”, chama atenção para, além do saber, preservar o lugar do desejo do analista.

Seguindo a leitura nos deparamos com os textos da rubrica, Psicanálise na cidade. Gustavo Cetlin nos apresenta, “Escrever-se: corpo, psicanálise e a função de um encontro”, a partir do documentário brasileiro, “Laerte-se”, relata a transição de um homem cis para uma mulher trans. Esta história ficcionada é o mote para apresentação de um caso clínico que, o que está em questão é a escritura de um corpo. Em seguida, Rafaela de Oliveira traz, a partir de: “Para a psicanálise… o ponto de impossível”, modelos diversos de relacionamentos íntimos: entre pessoas hétero e homoafetivas, trans e cisgêneras que desembocam em “novas configurações familiares”. “Escrever o indizível: um esforço de poesia?”, é o texto de Pauleska Nobrega, que retoma Marie de la Trinité que, ao conhecer o Pai e o Verbo, foi  arrebatada pelo amor e fez da escritura, a erosão do interpretável, do dizível.

O tema da pandemia não podia estar ausente nestes tempos de conturbações no social. Por exemplo, Andrea Amendola com, “O desejo do analista na prática com adolescentes em pandemia”, reflete sobre o adolescente encontrar-se com um analista e, frente ao que não cessa no indomável das pulsões, possa descobrir que é possível tomar decisões.

Com “O Divã virtual”,  Lenita Bentes segue nesta temática ao afirmar que nova rotina, novos parâmetros e o isolamento social, repercutiram no atendimento psicanalítico e conclui que o dispositivo analítico é feito de modo que a oferta cria a demanda sem responder a ela. Ainda nesta rubrica, Gabriella Dupim em, “E as mulheres, o que dizem da guerra?”, se refere a um impossível de dizer que se revela nos depoimentos de mulheres que voltaram da guerra. Já Geisa de Assis, com “O lixo vai falar e numa boa”, nos interroga: qual a lógica do racismo no inconsciente e, seguindo Lacan até o fim de seu ensino, no falasser? A conclusão possível é pensar que o psicanalista encarna e, por isso, presentifica, o resto a ser segregado, nas análises e na Cidade.

Na sequencia temos a FAPOL em movimento, com ênfase no trabalho em Cartel com os textos de   Denizye ZachariasOs efeitos do mais-um – destacando os efeitos de  formação do cartel; Claudia MurtaJá fez uma declaração de amor? – a partir da pergunta, por que o feminino é parceiro do amor? Ao concluir, nos apresenta as quatro parcerias elaboradas por Miller no percurso de uma análise, indo para além do atravessamento da fantasia no Parceiro-sintoma.

Ainda encontramos com o subtema, Amor e Escola, os textos de Frank LoretoA Escola, uma modalidade de amor e o de Zulema BuendíaAmor ao sinthoma, ambos sob os efeitos do XI ENAPOL, que também repercute na contribuição de Mariela Lavia –  Sigmund Freud, as cartas de amor  – que toma o amor como um labirinto de mal-entendidos. E, finalmente, Da ficção à fixação, texto de Daniela Dighero, que se interessou pelo lugar da ficção na análise e pelo destino dela em seu final.

Já nos aproximando do final de nossas leituras temos, Politica lacaniana na FAPOL, que traz textos sobre o autismo e o feminino. Duas perguntas norteiam os dois textos: a de Marcela PiaggiO percurso pelo duplo e o amor no autismo – Qual pergunta poderia ser mais difícil de responder senão a que se refere ao amor no autismo? E a de Gabriel GoycoleaSistemas classificatórios e predicados linguísticos de classes no autismo – O que é o autismo? E, sobre o feminino, encontramos boas leituras com os textos de Silvia Swarc  – Del amor al estrago y retorno e o de Paul Mata AlcántaraO feminino: do horror ao sinthome, que parte do  “repúdio ao feminino” em Freud para Lacan do gozo feminino no seminário XX. Com o texto, Do mais além do pai a seu deslocamento, Garbet Antonela faz um percurso do mais além do pai para conceber o final de análise como o sujeito se autorizando no que tem de feminino. Seguimos com María de los Ángeles Morana“La página en blanco”, uma forma fecunda do vazio – que convoca o feminino em sua alteridade radical e a página em branco articulada a história do sujeito e sua falta constitutiva.

Ainda nesta edição, abrimos a rubrica Psicanálise e arte – um verdadeiro presente de Natal (sob a curadoria de Graciela Allende e Beatriz García Moreno) –  com a entrevista de Mónica Biaggio, que merece um destaque especial, considerando seu enfoque na relação da psicanálise com a arte:  o seu processo  criativo  como um fazer algo novo; a referencia ao objeto a-rtístico – que é suportado por um vazio, e não vem para preencher nada porque se trata de um furo que não pode ser tamponado; o risco da arte quando entra no mercado é produzir um novo gadget; o seu trabalho com a inconsistência e outros temas afins. Em seguida, temos os textos sobre cinema e fotografia: Bruno Tarpani e Eduardo Benedicto, a partir do “Sonhar e gozar: despertar com o cinema?”, chamam atenção para o grande interesse que o cinema desperta, não só por ser objeto de análise, como também por inspirar conceitos e reflexões. E, Giovana Mesquita – As vítimas do que não se vê no cinema de Dolan – diz que podemos aprender, através do cinema, algo do amor. Ainda temos Adriana Tyrkiel falando sobre Violência: a outra cara do amor, a partir da questão: Como se explica que entre dois que diziam amar-se apareçam situações de extrema violência? Fechando esta rubrica, podemos desfrutar das participações de Wilker FrançaTexto-ação; Marcela MasO destino dos guardaschuvas e da video-entrevista sobre cinema com Diana Pawloski que, com a ideia do ‘cinema como um revelador sensível’ é também, como a psicanálise, um modo de tratar o real.

Ao finalizar o ano de 2021, em que a FAPOL realizou, com êxito, o XI ENAPOL, oferecemos aos nossos leitores das 3 Escolas da América e do Campo Freudiano, LACAN XXI, No 11, tempo em que agradecemos, especialmente aos autores, tradutores e a Comissão Editorial, por fazerem esta Revista existir. Uma boa leitura!

 


[1] Presidente da EFP (EuroFédération de Psychanalyse), a quem agradecemos especialmente pelo texto, marco do intercambio entre as federações da América e Europa.

Comentários estão fechados.