Entrevista a Mónica Biaggio

Entrevista a Mónica Biaggio

Graciela Allende. EOL/AMP – Beatriz García Moreno. NEL/AMP
 Mónica Biaggio.”Una cuestión de género”. EOL. “Oleo sobre tela 2018.1,50 x 1,00

Mónica Biaggio.”Una cuestión de género”. EOL. “Oleo sobre tela 2018.1,50 x 1,00

Mónica Biaggio, psicanalista e membro da EOL e da AMP. Mora em Buenos Aires. Suas obras têm acompanhado Lacan XXI desde o início da revista. Por este motivo, contactámo-la e após uma troca via telefone, ela aceitou generosamente uma entrevista.

LXXI – Monica, você é uma grande colaboradora com a sua arte em Lacan XXI, por isso estamos interessados nesta nova rubrica sobre Psicanálise e Arte, se nos puder dar algumas ideias sobre o seu processo criativo.

– O “criativo” merece pelo menos alguma reflexão. Vem do latim creare, que significa fazer algo novo. E no nosso tempo há um imperativo de fazer sempre algo novo, e se for muito, muito rápido, tanto melhor, e de passagem efémero. Sem memória. É por isso que, neste sentido, o meu processo não finge ser “criativo”, mas começa com desaprender o académico. Este é um processo no qual estou desde há alguns anos, mais de 20. Para me distanciar do novo, no sentido da novidade, para tentar distanciar-me do risco de duplicação do que determina o sistema do mestre do nosso tempo.

LXXI-Interessante a sua posição de se distanciar do novo como novidade e, acima de tudo, da duplicação. Como psicanalistas, se pensarmos no novo como uma resposta ao vazio da não relação sexual, neste sentido a arte – num certo ponto – não estaria mais próximo do mais próprio e, portanto, do novo?

– O novo na arte e também na psicanálise, parece-me, não é a novidade para a qual o capitalismo empurra. Também não existe um “novo” para todos. Não há “como as coisas devem ser”, não há verdade absoluta. Bacon citando Van Gogh dizia: “O que eu faço pode ser uma mentira, mas evoca a realidade com mais precisão”[1].

Devo dizer, no entanto, que sair de clichés pode nunca ser conseguido. Cézanne, em quarenta anos, fez uma maçã e um copo ou dois. Morreu amargamente acreditando que não o tinha conseguido. Dedicou a sua vida e o seu trabalho a combater clichés, e foi capaz, sem o saber, de inscrever a sua singularidade no seu carácter manzanesco[2]: “Não se pode imitar o verdadeiro carácter manzanesco. Cada um deve criar um novo e diferente. Assim que se assemelha ao de Cézanne, se torna nada”[3].

LXXI – Lemos em alguns dos seus textos que é possível ler o sintoma ao nível da obra de arte. O que nos pode dizer sobre esta afirmação?

Por exemplo, quando escrevi “Pintar o sintoma” em 2018, disse que o objeto a-rtístico, -Octavio Paz (dixit)- surge do vazio. Nesta perspectiva, então, coloquei na obra de arte: o sintoma – no singular – e o objeto a-rtístico. Disse que, eventualmente, ambos são o produto de saber fazer com o vazio, quer através da análise, quer através do ato artístico. No entanto, na tese que escrevi para o meu mestrado na Unsam, que defendi na Pandemia, tentei ir um passo mais longe. Creio que a criação ex nihilo, que é do vazio, é diferente de saber fazer com o furo.

Quanto ao objeto a-rtístico, com hífen, a que Octavio Paz se refere na obra de Marcel Duchamp, significa, na minha opinião, que, tal como não há “A” Mulher, não há “A” relação sexual, não há “O” objeto de arte. Este objeto caracteriza-se pelo fato de ser suportado por um vazio, que também não falta, se entendemos a falta como aquilo que é possível colmar. O objeto a-rtístico não vem para preencher nada. Não tampona. Mostra. E também não se pode dizer o que é. Entendo que o risco do que estou dizendo, é o de cair na idealização. É por isso que insisto em dizer que saber fazer não é um procedimento que possa sempre ser alcançado. É algo muito modesto e, ao mesmo tempo, é o que torna possível fazer de uma vida em algo que dá lugar à alegria, a outra forma de se satisfazer, o mais longe possível do sofrimento.

Por outro lado, encontro algo em comum entre o sintoma do qual Lacan fala em relação a Joyce e o objeto artístico do qual Duchamp fala, segundo Octavio Paz. Ambos chegam ao lugar do vazio desolado da Coisa, que eu entendo se tratar do furo. Nas palavras de Laurent, esse vazio que nos deixou a marca da primeira perda mítica. Por conseguinte, nunca poderá ser obturado. É por isso que, quando a arte entra no mercado, e se torna moda, produz um achatamento do vivo que poderia causar, e em vez disso corre o risco de produzir mais um gadget. Há obras que cumprem esta função utilitária na nossa sociedade… onde, além disso, a sociedade do espetáculo joga sua partida.

Bem, eu faço o esforço de me afastar dessa zona.

LXXI – Como era a relação entre a psicanálise e a arte no início para você, ou como atravessou a sua vida?

Não a atravessou. Porque “é” a minha vida. A arte e a psicanálise, esse nó. É a minha vida. Meu fazer é a partir daí. Não tenho outra vida senão essa de mulher, e de psican-artista[4] (risos).

A arte veio primeiro, desde que me lembro desenho, havia alguns artistas na família, onde a arte fazia parte dela. Música, pintura.

Suspendi minha carreira em Belas Artes. Eu tinha feito o exame de admissão em Fevereiro de 76; após o golpe militar, decidi suspender o curso que tinha iniciado em Março de 1976. Estive lá apenas durante alguns dias.

Por outro lado, Freud e os seus textos fizeram parte da minha leitura na minha juventude. Chegaram a mim através de uma professora de psicologia, na escola no segundo grau. Naqueles tempos de proscrição, havia espaços de leitura, e também de arte, que eram mantidos nas margens. Era um modo de vida apesar do horror que nos atravessava a muito argentinos. Passaram-se alguns anos, nos anos 80, quando regressei à Belas Artes, Psicologia ainda estava a ser intervenida… Decidi entrar nesta carreira quando a democracia chegou ao nosso país.

 LXXI – Pode dar-nos uma ideia de como percebe, na sua obra, fazer com o vazio?

Não o percebo. Eu o vivo. Por vezes é angustiante. Consegui distinguir uma diferença: há anos atrás, o mal-estar que senti estava ligado ao lugar do Outro como o Ideal do eu, de perfeição, e cânones muito radicalizados dirigidos para a busca, quase diria, da proporção divina. Inacreditável! Porque tal coisa não existe. Para além do número de ouro e da sua presença na natureza de quase tudo neste mundo, contudo, não o há. Nos falantes não há proporção divina, não há número de ouro que valha a pena.

LXXI -Gostaria de nos falar sobre qualquer traço singular que se plasme no seu trabalho?

O esforço de não me parecer com mais ninguém e ao mesmo tempo assegurar que em cada obra, algo dos queridos mestres que tanto me transmitiram, e que já não estão aqui, se faça presente. Assim como aqueles mestres cujo trabalho tem um impacto sobre mim, rasgam minha pele, que algo dessas marcas possam ficar plasmadas nos meus mamarrachos.

Quanto às obras em si mesmas, sou multifacetada, investigadora, inquieta. Pintei durante muitos anos com óleos. E durante alguns anos, juntamente com Ernesto Pesce, eu “desaprendi” o controle do lápis, do pincel, para dar prioridade à velocidade, ao espontâneo, ao olhar rápido. Desenhávamos um modelo ao vivo, quatro minutos e eu mudava de pose. Um exercício incrível foi amarrar um pincel na ponta de uma vara de um metro, e com tinta fazer estes desenhos de quatro minutos com um modelo. Tremendo!!! Também desenhávamos a estrutura da figura humana, desenho formal. Fomos de um para outro. Isto é o que eu chamo trabalhar com a inconsistência.

Foi assim que comecei com tintas, aquarelas, carvões, e ainda trabalho com óleos.

Devo-me aos acrílicos, não sei porque nunca fui capaz, até agora, de fazer amizade com esse material. Embora Gorriarena nos tenha levado aos acrílicos e quando vejo as obras de Carlos Alonso, os seus acrílicos são viscerais, ou seja, é um material de que gosto, mas não consigo apreendê-lo. Na Pandemia acrescentei murais e agora cerâmica, tentando fazer esculturas com essa técnica.

Quanto ao singular, em qualquer caso o deixo ao espectador, quer ele o leia ou não. Se algo dessa marca encontrou ou não o seu lugar, dependerá disso.

LXXI – Considera que o singular, ao qual você se refere, tem relação com o singular do espectador? Como pensa que este estatuto do singular é colocado em jogo?

Dei o exemplo de Cézanne, o manzanesco das suas naturezas mortas que não foi nomeado por ele, mas por Gilles Deleuze. Não penso que seja apenas uma mera percepção, porque as coisas mais impactantes na obra deste artista são as suas naturezas mortas. Depois há os jogos das suas perspectivas descentralizadas, por exemplo, na sua obra “Os Jogadores de Cartas”, mas não é aí que este filósofo localiza o singular, mas sim nas naturezas mortas.

Do lado do artista, acredito que o singular não é algo que se conheça a priori e que depois seja aplicado na obra. Não creio que seja assim, sai ou não sai. Não se trata de um saber académico.

Com a transmissão dos AEs algo disto também acontece… ou não acontece. Esta transmissão não tem a mesma ressonância para todos. Há alguns dias, ouvi o primeiro testemunho de Jorge Assef, que me produziu uma ressonância e uma forte emoção. Tocou em algo íntimo. E isto nem sempre acontece.

LXXI – Você também faz esculturas? Isso tem a ver com a velocidade ou o olhar? De que forma?

Trabalho, tanto na psicanálise como na arte, com a inconsistência. Ou seja, posso fazer um desenho brincando com a rapidez e a espontaneidade. Mas na cerâmica isto é impossível. Exige “retardamento” – para utilizar um conceito de O. Paz. Com a cerâmica, trabalha-se diretamente com o vazio. Se coloca uma peça no forno sem a esvaziar, quando a cozes ela “explode”. Ou seja, não há lugar para o cheio. É uma prática que tem muito a ver com a psicanálise. Quanto ao olhar, ele está sempre lá, mas não da mesma forma. Há vinte anos o olhar como objeto estava ligado a um Outro superegoico com o qual eu não sabia como lidar. Por outro lado, quando o objeto se desprendeu dessa instância – que foi reduzida – funciona de uma forma diferente, permite uma forma de satisfação que se experimenta no corpo.

No meu último livro: “Sexualidade e morte, dois estigmas clínicos”, dou o exemplo de Miguel Ângelo e algo que ele sustentou: que o David já estava na pedra e que, como escultor, apenas se ocupou de remover o que sobrou. Neste sentido, encontro um paralelo entre o procedimento da cerâmica, com uma análise; porque ouso dizer que o percurso de uma análise é esse: tirar o que sobra, e que no final fica, talvez, um ou dois detalhes que dão conta do que cada um de nós se serviu para se enodar na vida.

LXXI – Poderia dizer-nos algo sobre esta tecelagem entre a psicanálise e a arte que se precipita no sinthoma?

Não é um universal, nem é um particular de um universal. Essa tecelagem foi produzida na minha vida, com muitas voltas e reviravoltas na minha análise, mesmo que…

LXXI – Obrigado Mónica por nos trazer algo da sua “psicoan-arte”.

Tradução Nohemí Brown

 

Mónica Biaggio, psicanalista, membro da EOL e da AMP. Licenciada pela Escola Nacional de Artes Visuais Manuel Belgrano; estudou com Carlos Gorriarena, Miguel Ángel Bengochea, e Ernesto Pesce. Realizou uma exposição individual no Centro Cultural Borges, em 2012 “Natural”, e várias exposições colectivas.
Mestrado em Clínica Psicanalítica, Unsam; Tese: Estetização do sintoma – 2020. Participou na série “Obra Compartida” de Ernesto Pesce com mais de 1.500 artistas, 2021. A exposição e a apresentação do livro terão lugar em breve. A sua obra “Madres” será apresentada na V Bienal Internacional de 2021.

 

[1]  Maubert, F, El olor a sangre humana no se me quita de los ojos, Conversaciones con Francis Bacon, Acantilado, Barcelona 2012, pág.79.
[2]  N.T. Referente a maça – manzana em castelhano.
[3]  D.H Lawrence, Eros et les chiens, éd. Bourgois, pp.238,261; en: G. Deleuze, Francis Bacon, Lógica de la sensación, Arena Libros, Madrid, 2002, pág.90-91.
[4]  N.T. no original: psicoan-artista.

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