Escrever o indizível: um esforço de poesia?

Escrever o indizível: um esforço de poesia?

Pauleska Asevedo Nobrega – Participante Seção Nordeste/EBP

No testemunho da religiosa Marie de la Trinité, paciente de Lacan, De la angustia a la paz[1], a exigência da Deidade paterna no circuito do amor foi passaporte para sitiar o gozo do corpo próprio como Outro, um duplo. A escrita, um lugar para a enunciação à serviço de uma solução lógica singular do não-todo, mais próxima da transferência com o seu analista, uma vez que a princípio, era a ele que endereçava o que escrevia. Trata-se de uma escrita produto do discurso analítico.

Datada de 1950, nela, relatou roçar com a loucura quando se submeteu à internação psiquiátrica. A partir desse evento traumático, historiciza os percalços que a realização do seu desejo de sacerdócio trouxe para si, remontando as raízes dos sintomas de agressividade; culpa; as obsessões sobre os alimentos; o vazio mortal; a vergonha e a angústia da desaprovação. A disjunção entre a consciência moral e a consciência espiritual remetiam a sua primeira infância, ao bullying que sofria das irmãs e a sua reação colérica, seguida de pedidos de perdão. A sua sinceridade era questionada justamente porque essa situação voltava a se repetir. Diante dos seus quadros de irritabilidade, a mãe costumava deixá-la por três dias na cama até que recuperasse a sua tranquilidade. Sob influências clericais e religiosas, tornara-se incapaz de ter um juízo justo. Esse viés da falsidade era um signo de morte e castigo. No entanto, Deus, aparece como o que a retém diante dessas injerências, jamais questionado por Lacan, como o fizeram outros médicos.

Em 1929, Marie de la Trinité havia experimentado a sua primeira «Graça». Nesse contexto, havia negado à madre Saint Jean a ida a um retiro. Só se interessava pela vida contemplativa e enclausurada, mas sob os seus votos de obediência, fora mesmo assim. Esse foi um momento de perda, inclusive de Deus. Na capela, estendida ao solo com braços em cruz, testemunha: «Fui como submergida em Deus – e me pareceu que Ele me absorvia em sua Deidade, e que, embora seguia sendo eu, não operava por mim mesma, senão através Dele […] conheci a Deidade de Deus – conheci seu Ser […]»[2].

Marie de la Trinité não era mais a mesma, houve uma operação de descontinuidade. A pergunta que ela sustentava, «[…] como podes unir-te à alma?», acede a uma resposta: «Conheci o Pai e conheci o Verbo, e fui como tomada e arrebatada pelo Amor»[3]. O amor-veículo para o vivo do corpo, que alça a liberdade devida quando subverte a ordem, a faz sair do impasse de ir ao retiro por obediência, mas sem desejá-lo.

Os místicos acreditam que deve haver um gozo mais além do falo e o experimentam, expondo o furo no saber[4]. Ensinam sobre a barra, pois não há Outro que não seja barrado, sem exceções. Marie de la Trinité não alcança A mulher, mas, Um Deus (de amor) que a habitava. Não ignorar o efeito erosivo da linguagem quanto ao que ela faz existir é considerar, portanto, na relação com o amor «[…] o gozo do Ser Supremo, quer dizer, Deus […] amando a Deus, é a nós mesmos que amamos»[5].Um Deus de amor o é na medida em que, como Outro, é barrado, indicando que não existe outro do Outro, quando S(/A) ganha sua função lógica fazendo acessar o impossível da dimensão do Outro.

Rivalidade, supereu, Outra, muitas são as coordenadas que podem se manifestar a partir da língua singular de cada corpo falante, na tentativa de localizar o que não se localiza da suplmentariedade do gozo feminino ao gozo fálico. O corpo místico como uma solução lógica suportada pela face de Deus, fora, inclusive da maquinaria da linguagem e, por isso, por vezes, arrebatador, nem sempre é devastador, tampouco, feminino. A categoria do universal não o compromete.

Marie de la Trinitité demonstra que o que lhe arrebata, na experiência da «Graça», ao mesmo tempo a faz vislumbrar um outro modo de gozar, distinto daquele no qual a sua trama reconhecível a implicava a partir do choque da língua no corpo. Onde não mais jazia a ditadura da obediência e da moral, é onde ela reconhece o que chamou de uma «reeducação[6]» não anônima que a liberava para o novo no corpo vivo. Deus apareceria como parceiro de gozo, conector para Outra de si mesma[7], uma saída, uma «vitalização da deficiência[8]», sobre a qual faz a sua escritura. O que se escreve aí, somente se dá pelo impossível de escrever da relação sexual. A escrita é, pois, suplência do não-todo. Lacan em Lituraterra[9], aproxima do real os mistérios pelos quais uma letra/carta de amor chegaria sempre ao seu destino. A escritura, seria o ravinamento do interpretável, do dizível.


 

[1]  Mulatier, Paule De. Marie de la Trinité. De la angustia a la paz, testemonio de uma religiosa, paciente de Jacques Lacan (1956), Nuevos Empreendimentos Editoriales S. L.: Barcelona (Espanha), 2018.
[2]  Mulatier, Paule De. Marie de la Trinité. De la angustia a la paz, testemonio de uma religiosa, paciente de Jacques Lacan (1956), Nuevos Empreendimentos Editoriales S. L.: Barcelona (Espanha), 2018, p. 56-57.
[3]  Mulatier, Paule De. Marie de la Trinité. De la angustia a la paz, testemonio de uma religiosa, paciente de Jacques Lacan (1956), Nuevos Empreendimentos Editoriales S. L.: Barcelona (Espanha), 2018, p. 61.
[4]  Lacan, J., O Seminário, Livro 20, Mais Ainda (1972-1973), Zahar, Rio de Janeiro, 2008.
[5]  Lacan, J., O Seminário, Livro 20, Mais Ainda (1972-1973), Zahar, Rio de Janeiro, 2008, p. 77.
[6]  Mulatier, Paule De. Marie de la Trinité. De la angustia a la paz, testemonio de uma religiosa, paciente de Jacques Lacan (1956), Nuevos Empreendimentos Editoriales S. L.: Barcelona (Espanha), 2018, p. 39.
[7]  Lacan, J., «Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina». Escritos (1998-1960), Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1998, pp.734 – 745.
[8]  Mulatier, Paule De. Marie de la Trinité. De la angustia a la paz, testemonio de uma religiosa, paciente de Jacques Lacan (1956), Nuevos Empreendimentos Editoriales S. L.: Barcelona (Espanha), 2018, p. 40.
[9]  Lacan, J., «Lituraterra». Outros Escritos (1971). Editora Jorge Zahar : Rio de Janeiro, 2003.

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