“Homossexualidade feminina: uma questão de amor”1

“Homossexualidade feminina: uma questão de amor”1

Graciela Brodsky – EOL/AMP

Como todo momento de concluir, este é um momento de abertura, pois haverá muitas perguntas sem responder, muitas questões sem abranger e é isso que nos permitirá seguir avançando.

Como vocês sabem, esta é uma mesa sobre a homossexualidade feminina e sua articulação com o amor.

É claro que essa questão está inscrita  nas referências de Lacan, especialmente do Lacan como leitor de Freud, leitor dos primeiros casos da obra de Freud, de Lacan reinterpretando Freud.

Meu ponto de partida é simples, os três trabalhos abordam, de uma maneira ou de outra, a homossexualidade feminina como a tentativa de inscrever um gozo diante da impossibilidade de escrever a relação sexual. Nenhum dos três trabalhos está fora dessa problemática. Mas esse impasse não é apenas o da homossexualidade feminina, mas o de todo ser falante. Então, o que há de particular na solução da homossexualidade feminina? Sua solução, a solução das homossexuais que escutamos, não tem nem maior nem menor dignidade do que outras soluções: a solução psicótica, a neurótica, a perversa, a da homossexualidade masculina, etc.

Na verdade, toda a nossa clínica poderia ter o mesmo título: como lidar com um gozo que ali está, que existe apesar da falta de relações sexuais?

O interessante é refletir de que forma se lida com o impasse, porque o impasse é para todos, mas a forma como é enfrentado tem duas dimensões. Uma dimensão é a dimensão singular, cada analisando a maneja de uma forma intransferível, própria, que dá origem a uma casuística. Nenhum dos três trabalhos que comento apresenta casos clínicos, de modo que essa dimensão singular de uma homossexual feminina sob transferência não é a que vamos colocar em jogo para nossa conversação. Mas temos, isso sim, muitas reflexões sobre qual seria a solução particular. Não a solução singular, mas a solução particular da homossexualidade feminina quanto ao impasse de não haver relação sexual.

A chave de leitura da contribuição apresentada pela EBP, Escola Brasileira de Psicanálise, seria formulada em termos do saber. Estou me referindo à preciosa distinção que fazem entre a solução – e ao mesmo tempo o beco sem saída – de Dora e a solução – e ao mesmo tempo, o beco sem saída – da Jovem Homossexual, quando tomam como eixo a questão do saber.

A diferença entre as duas é que Dora quer saber, ela quer saber algo sobre o mistério do feminino, uma questão que ela tenta resolver sem sucesso por meio da outra mulher, a Sra. K. Mas o fundamental não está aí, não é a Sra. K. Senão, é a cena de Dora sentada em frente à Madonna no museu, dirigindo sua pergunta não respondida ao Outro, ao Outro com uma letra maiúscula: o que é uma mulher? Dora quer saber. Talvez isso a deixe histérica, ela pergunta ao Outro sobre a incompreensibilidade do feminino. Ao contrário, a Jovem Homossexual se coloca no lugar da que sabe. E não somente sabe, senão que lhe ensina e mostra a ela ao outro, que não sabe, o que é o amor, o amor verdadeiro. “Um amor que sabe” é, com efeito, uma das vertentes da obra da EBP. Um amor que sabe e o falso furo, referência que escolhem depois do Seminário 23.

Esse ponto se conecta bem com o trabalho produzido pela EOL, a Escola de Orientação Lacaniana. Leio alguns parágrafos: “A homossexualidade nos ensina sobre o amor”; “A jovem homossexual ensina, demonstra, tenta produzir marcas”. E têm uma fórmula que me parece preciosa, “A pedagogia no campo pulsional”. Efetivamente, a Jovem Homossexual quer ensinar o que é amar sem ter, dando o que não tem. Reconhecem aqui a fórmula clássica de Lacan sobre o amor em sua articulação com a castração. O caso da Jovem homossexual não deixa de ser um precedente do impulso lecionador, dessa aspiração a uma pedagogia pulsional que costuma estar presente em alguns movimentos feministas atuais que, sem saber, retomam o espírito de ‘Las Preciosas’ com a ideia de transformar a linguagem em si para apagar toda presença da diferença entre os sexos.

Essa pedagogia pulsional que visa educar a ineducabilidade do gozo, que parte do relevo do Nome do Pai e fracassa tanto quanto aquele, diz algo sobre a solução malsucedida de alguns casos de homossexualidade feminina que tentam mostrar que o amor é dar o que não se tem, mas ao custo que ninguém o tenha. Assim, re-instalam um “para todos” do lado que chamamos “feminino” das fórmulas da sexuação, que aspira  universalizar – encorajo-me a pensar assim – a foraclusão do falo.

O trabalho apresentado pela NEL, a Nova Escola Lacaniana, mostra muito bem como a solução da homossexualidade feminina falha porque, na busca do feminino, acaba fazendo existir A mulher sem a barra, numa universalização que é exatamente o contrário do “não todo”. O “não todo” é o oposto do universal, objeta o  universal. O universal presente do lado feminino é bem diferente do universal do lado masculino das fórmulas; o “não existe ninguém que não ” do lado feminino não é o “não todo”, é uma fórmula universal que faz existir A mulher. Quando se trata das mulheres homossexuais, isto se observa com frequência a partir de um amor idealizado. A diferença do “sem exceção” do universal feminino , uma mulher é “não toda” em relação ao gozo fálico, ao qual é necessário consentir para topar com o que o excede. Esse excesso, esse ecce homo que vocês mencionam, é completamente diferente como suplemento da lógica fálica do que como foraclusão, rejeição, elisão, burla do falo.

Então, de um lado, a questão do saber, pelo outro, a idealização de A mulher como toda. Vejo aqui os impasses da solução fracassada que vocês colocam em  destaque.

Quero terminar colocando sobre a mesa uma questão que me parece central e que me fez pensar na leitura dos três trabalhos que vocês trazem, pois se firmam em uma referência que eu não tinha presente e que me parece crucial para mim. É a referência do Seminário 19 “… ou pior”:

“É a mesma coisa que há muito tempo afirmei em um determinado programa de um Congresso sobre a sexualidade feminina. Únicamente, dizia – para aqueles que sabem ler, logicamente – unicamente a homossexual, que aqui deve ser escrito em feminino, sustenta o discurso sexual com total confiança”[2].

Esse parágrafo citado pelos três trabalhos continua: “é irritante, porém [e este é o ponto crucial] que isso ampute para a homosexual o discurso psicanalítico. Pois esse discurso, é um fato, deixa às muito queridas numa cegueira total em relação ao gozo feminino”[3].

Quer dizer que essa facilidade, essa confiança com que a homossexual se conduz no nível do discurso sexual, para Lacan tem como consequência uma cegueira em relação ao discurso analítico. Pois bem, visto que temos homossexuais em análise, o que nossas homossexuais nos dizem sobre esse impasse radical que Lacan encontra?

“A homossexual de forma alguma está ausente do que lhe resta de gozo. Repito, isso facilita o discurso do amor”, páginas e páginas,”mas é claro que isso a exclui do discurso psicanalítico, que ela mal consegue apenas balbuciar“.

Portanto, aquele discurso sobre amor e sexo que Lacan exemplifica com ‘Las Preciosas’ e que as homossexuais sustentam, as deixa, no seu entendimento, cegas a respeito do discurso psicanalítico.

O que explica essa antinomia entre o discurso analítico e o discurso amoroso, uma vez que o discurso analítico é o discurso amoroso por excelência, sustentado, como está, no amor de transferência? As homossexuais das que Lacan fala deveriam ser as que estão mais facilmente inseridas no discurso analítico, e não obstante ele diz o contrário. Para mim é uma revelação ter encontrado, graças a vocês, esse parágrafo que eu realmente não tinha em mente.

Retorno a um comentário de Sergio Laia em consonância com algo que também pensei tentando encontrar uma resposta às perguntas que me coloco. Sergio diz: “Parece que a relação contemporânea de muitas homossexuais com o saber, na medida em que se posicionam como ostentando um saber, é justamente o que lhe permite a Lacan dizer que elas balbuciam o discurso analítico, enfim, não é o saber o lugar do agente desse discurso”. Uma resposta simples e muito objetiva. Na medida em que algumas homossexuais se apresentam como aquelas que sabem o que é uma mulher, as que ensinam a lição sobre o que é uma mulher verdadeira, isso efetivamente representa uma dificuldade para o discurso psicanalítico, pois o saber está mal colocado. Se um sujeito se coloca do lado de quem sabe – não é a certeza psicótica, mas é uma certeza sobre a essência do feminino – se situa do lado oposto do suposto saber, que é a própria definição do Inconsciente. É uma resposta simples e ao mesmo tempo eloquente, à antinomia que Lacan apresenta.

Finalmente, uma referência de Lacan para retomar, como vocês indicam, a posição que convém ao analista: não se identificar com o Mestre, se deixar ensinar, saber que ali há algo que vale a pena escutar. É uma referência que encontramos em “Ideias diretivas para um Congresso sobre sexualidade feminina”, do ano 58, muito longe do último ensino. Lacan diz: “Por que não sugerir aqui que o fato de que tudo o que é analisável seja sexual não implica que tudo o que é sexual seja acessível à análise?”[4].

Se estamos advertidos que existe algo que não é acessível à análise, inclusive que há um impossível de dizer, então podemos ter uma verdadeira posição de escuta. Talvez assim pudéssemos dar um passo além de Freud, estar atentos não só ao que lhe ensinaram “os bicos de ouro das histéricas”, mas ao que às vezes dizem, ora vociferam, essas mulheres que intentam fazer passar algo ao campo da cultura, ao campo do Outro. É verdade que este “vagido” pode ser interpretado, mas isso não implica que não seja escutado. Deixar-se ser ensinado, neste caso, não equivale a uma ignorância aprendida, não é “esquecer o que você sabe”. É a posição que convém por estar advertidos de que há algo que não pertence ao registro do saber. Somente assim, parece-me, poderemos acolher o novo e fazê-lo servir ao discurso psicanalítico.

Desgravação e edição: Silvina Rojas (revisada por Graciela Brodsky) 
Tradução ao português: Iordan Gurgel

[1] Intervenção realizada na Conversação Semiplenária “A homosexualidade feminina: uma questão de amor”, no marco do X ENAPOL. Graciela Brodsky comentou, juntamente com Glacy Gorski da EBP, os trabalhos apresentados pelas ‘duplas’ de cada uma das Escolas coordenadas por: Silvia Macri e Clara Holguín (NEL) | Milena Vicari Crastelo e Simone Souto (EBP) | Azucena Zanón e Silvia Ons (EOL). 10/10/2021
[2] Lacan, J El Seminario Libro 19, Paidós, Buenos Aires, 2012 p.17
[3]  Ibidem, p. 18
[4] Lacan, J. Ideas directivas para un congreso sobre la sexualidad femenina, en Escritos 2, Siglo XXI, México, 2009, p. 693

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