O amor invisível no cinema de Dolan

O amor invisível no cinema de Dolan

Giovana Reis Mesquita – Associada do Instituto de Psicanálise da Bahia*

Buscamos através do cinema aprender algo sobre o amor, sobre ser vítima do amor. Pois cinema e amor sempre andaram juntos; o cinema é a arte de fazer a relação sexual existir.

Antelo (2015) diz que as imagens do próprio corpo, do corpo do outro e do coito são as substâncias que alimentam a nossa pulsão escópica e conclui dizendo que o coito é um dos grandes motivos do cinema, fazendo desse uma verdadeira escola de gozo.

Sobre aquilo que não podemos dizer sobre o amor, podemos tentar fazer ver no cinema. Miller (1998) nos diz que a arte começa onde o que não pode ser dito, pode ser mostrado. E talvez por isso o amor e o cinema casem tão bem: pois o cinema é capaz de fazer o que Wajcman (2012) diz que a psicanálise faz: o impensável entrar no pensamento, o irrepresentável entrar na representação, e a ausência entrar na presença.

Mas por que o cinema se debruça tanto sobre o amor?

Para Soria (2018), “a experiência mesma do amor é a experiência de um objeto que se subtrai, que se escapa; e o campo escópico é a dimensão na qual melhor se capta esse fenômeno estrutural. [… ] a falta está ligada a uma negativização da visão, a falta do imaginário é uma falta de imagem.” (p.62). Assim parece que o mais importante do imaginário é o que não se vê. E dessa forma se desenha mais claro a relação entre cinema e amor. A busca incessante do cinema em fazer ver a castração.

Para tentar problematizar essa questão, elegi um cineasta e roteirista novo, jovem, Xavier Dolan, que nos traz o novo no amor, quer dizer, a nova maneira de fazer a relação sexual existir. Dolan é canadense, nasceu em 1989 em Montreal, e aos 16 anos escreveu o roteiro de seu primeiro filme. Chamou a atenção da crítica internacional em 2009 quando conquistou três prêmios no festival de Cannes e mais de vinte prêmios em outros festivais.

Seu filme “Matthias e Maxime” (Matthias e Maxime, 2019, Canadá) traz uma sequencia de cenas iniciais de uma forma mais naturalista, mostrando a entrada na fase adulta de jovens amigos, entre festas e conversas banais. A história de fato começa quando uma estudante de cinema, que precisa filmar um curta metragem para seu trabalho de conclusão de curso, procura participantes entre a turma do seu irmão mais velho. A escolha recai sobre Matthias e Maxime, amigos de infância. A proposta dela é que eles devem se beijar. A consigna é: “Duas mulheres. Vocês são duas mulheres ou homens. Tanto faz. Aí do nada, bam (sic)! Vocês estão se beijando. É a única coisa de verdade”.

Esse beijo os divide. É a partir daí que se desencadeia todo o rumo do filme, onde os dois personagens se veem mergulhados em dúvidas, desejos e medo diante da possibilidade do amor que surge entre eles. É o amor fazendo suas vítimas a partir do fake. É a ficção mostrando o amor que na vida real dos personagens não havia aparecido.

O amor parece ser então o grande protagonista do filme. Mais do que o amor, a incerteza do amor. Um dos personagens, Maxime, diz, em algumas cenas, que precisam conversar, falar sobre isso. Mas essa conversa nunca acontece, apontando que no amor sempre existe uma falta. Algo impossível de dizer, que não se completa. Esse silêncio, essa falta, permeia todo o filme.

O curioso é que esse beijo não é mostrado. O principal do filme, o que desencadeia todo o drama do filme, não é visto. Bem na nossa frente, o que se vê é justamente a câmera de cinema no lugar do beijo, no lugar da “única coisa de verdade” (como diz a personagem que está rodando o filme). O verdadeiro, o real, é, portanto, o que não se vê. O amor aparece a partir de um real que não vemos. No caso desta cena, o que se mostra é a impossibilidade de ver. Talvez seja uma boa metáfora para dizer que o amor cobre, supre, o que não há; assim como o cinema.

E o que é que não há? A relação sexual. Lacan no seminário XX articula amor à castração. Ao amor só se tem acesso castrado. O amor vem como suplência da relação sexual, revelando seu impossível.

Portanto, o que a câmera tapa é o impossível da relação sexual. O cinema vai cobrir a inexistência da relação sexual, assim como o amor, e tentar fazê-la existir. Para isso, a arte cinematográfica vale-se da função do campo escópico; que é de tender sempre a simbolizar a falta central da castração, como destaca Lacan no Seminário 11 (cap. VI). O campo visual, o campo imaginário, é o que mais tende a completar a imagem – vide os princípios da Psicologia da Gestalt, da boa-forma, como nos lembra Lacan em seus Escritos (p.98 e 99). Assim, tenta-se fazer existir completando a imagem que não se vê,  tal como o beijo que nos escapa da visão nessa cena.

Precisamos inventar, completar o impossível de ser visto. E isso nos lembra que o amor tem sempre algo de invenção. Parece que é isso que Dolan nos diz em seu filme: somos vítimas daquilo que inventamos.

Participante do Núcleo de Investigação Psicanálise e Audiovisual coordenado por Marcela Antelo

Referências:
Antelo, M. La inquietante extrañeza en el cine. Tese (Doutorado em Comunicação). Departamento de comunicação, Universidad Pompeu Fabra. Barcelona, 2015.
Lacan, J. Escritos. “O estádio do espelho como formador da função do eu”. Rio de Janeiro, Zahar, 1998.
Lacan, J. O seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro, 2008.
Lacan, J. O seminário, livro 20, Mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 2008
Lacan, J. O seminário, livro 9: A identificação (1961-1962). Aula de 21 de fevereiro de 1962. Inédito.
Miller, J-A. Los signos del goce, Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires, Paidós, 1998, p. 321.
Soria, N. Nudos del amor. Buenos Aires: Del Bucle, 2018, p.62.
Wajcman, G. “A arte, a psicanálise, o século”. Lacan, o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

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