O Divã Virtual

O Divã Virtual

Lenita Bentes – EBP/AMP

Nova rotina, novos parâmetros e o isolamento social. Este, o mais difícil de cumprir, não deixou de repercutir no atendimento psicanalítico, que, tradicionalmente, obedecia a um protocolo onde procedimentos eram, desde logo, estabelecidos e, à época, chamados de critérios de analisabilidade: inteligência, idade inferior a cinquenta anos, consentimento em relação ao método analítico, confiança no analista, bom nível cultural e de caráter e uma ou duas semanas de “tratamento de ensaio”, além de um diagnóstico adequado para evitar esforço inútil do paciente e do analista. A melhor resposta clínica viria dos casos de neurose traumática.

O processo analítico era definido por Freud (1937) como “uma aliança do analista com o ego do paciente em tratamento, a fim de submeter partes de seu id que não estão controladas, o que equivale a dizer, incluí-las na síntese de seu ego.”[1]

Freud definiu também os critérios que inviabilizariam o tratamento, tais como: fatores fisiológicos, biológicos e o instinto de morte, limitadores do tratamento. Eram também consideradas a duração das sessões e a periodicidade delas, assim como o grau de proximidade com o analista. A ambiência do início dos encontros com o analista foi chamada “setting” pela Escola Inglesa, pela IPA.

Nos critérios estabelecidos para o tratamento, cuidadosamente elaborados por Freud e seus seguidores, se incluía o uso do divã, que, mais que uma peça do mobiliário, indicava a oferta de dar voz ao inconsciente, às vivências recalcadas que interferiam na vida do paciente, produzindo sintomas. O divã, indispensável ao trabalho analítico, visava a que a presença do analista não interferisse no curso associativo do paciente, desviando-o do texto a decifrar.

Lacan, em seu seminário “O saber do psicanalista”[2], denominou as primeiras entrevistas como “entrevistas preliminares”. Na “Proposição de 9 de outubro de 1967”, tratou a passagem ao divã partindo de uma precisão clínica que “matemizou” e definiu como o momento em que, no discurso do paciente, se instaura a “suposição de saber”. Quer dizer, quando no discurso, o sujeito produz um significante chamado “qualquer”, no sentido de sempre bem-vindo, que é o significante da transferência[3].

É em torno desse significante que se desenrolará o trabalho analítico. É um significante de alto valor psíquico que comandará o curso associativo até o final da experiência, permitindo concluir – o que é visível a partir dos depoimentos de Passe – que o que está ao final da experiência, lá esteve no inconsciente desde o início.

O algoritmo da transferência, tal como grafado na “Proposição de 9 de outubro de 1967”, é escrito numa fração onde estão separados significante e significado:

No numerador, está um S (barrado, sujeito barrado) que se dirige a um Sq. ou seja, a um significante qualquer.

No denominador, está o s (S1, S………Sn), a cadeia dos significantes em reserva no inconsciente.

S barrado ______________  Sq

——————————————————

s (S1, S2, S3, …………………………Sn)

É pela via da suposição de saber, SsS, depositada no analista que se instaura a transferência. O “saber suposto” ao analista é o saber em reserva no inconsciente do sujeito. “O SsS é também chamado por Lacan de pivô da transferência na medida em que funda a transferência na relação entre o sujeito e o significante” (Miller, 2011).[4]

No mesmo curso, Miller apresenta a transferência sob duas vertentes: “Chamei leitura a uma destas vertentes e libido a outra. Creio que esta divisão entre a leitura (ou deciframento) e a libido (ou o gozo) continua determinando nosso enfoque da questão da transferência e do fim da análise”.[5]

Acreditamos – diz Miller (2011) – no sintoma. Acreditamos que há sintomas que se curam pela revelação de sua causa, presente no sujeito, causa, ignorada por ele […] acreditamos que o sujeito pode curar-se por meio de um enunciado formulado de forma explicita […] assim podemos aproximar do inconsciente  alguém que não tinha ideia dele.[6]

No início, portanto, está a transferência. E só depois, uma demanda pode ser formulada. A transferência surpreendeu Freud ao observar que o analista é muito importante no que se refere à economia psíquica, ou seja, que o paciente lhe tem um apego especial, que o analista atrai libido. O que a princípio parecia atrapalhar o trabalho passa a ter um caráter indispensável ao tratamento, e a razão para tal é que ele é investido da autoridade do Outro primordial.

Então, diante de todo esse sofisticado aparato analítico, como reage o sujeito quando o encontro presencial se torna virtual, como forma possível de manter o tratamento? Alguns efeitos são observados em decorrência da ausência física da presença do analista, de seus movimentos, do percurso da sala de espera ao divã, quando sua voz e seu olhar entram em cena, e o paciente, ator e autor do ato analítico, irá apresentar o texto de seu inconsciente. Ator, posto que encena o texto que lhe coube ler de seu inconsciente, e autor, uma vez que o escreveu a partir da relação com seus Outros. “Que se diga, fica esquecido detrás do que se diz no que se ouve”.[7] O ator/autor tem na plateia, a assistir via transferência, o analista que sustenta o ato analítico, pagando com sua presença, suas palavras e o mais íntimo de seu ser, como diz Lacan em “A direção da cura e os princípios do seu poder”[8]

Então, as ferramentas tecnológicas, o mundo virtual digital e todas as suas possibilidades facilitam, na prática, os atendimentos interrompidos pela contingência da pandemia. Quanto à práxis, permitem uma relação possível com o que não cessa de se escrever, com o sintoma? A experiência anda a mostrar que sim.

Tais ferramentas são igualmente favorecedoras das relações entre os analistas e seus pares, mas quais as consequências subjetivas do recente divã virtual, divã inexistente, e da ausência física do analista? Como avaliar seus efeitos e calcular seus riscos?

Há transferência, há redução do gozo mortífero, há o inconsciente transferencial e ali está também a ser tomado na trama discursiva o inconsciente real. É o que podemos verificar na experiência cotidiana da clínica. No entanto, há riscos a serem considerados. Há o risco de o trabalho analítico cair nas malhas da psicoterapia; além disso, o fato de que, ao se tornarem visíveis os espaços de moradia de ambos, da dupla analítica, que o encontro seja prejudicado por uma imaginária e obscena intimidade. Há ainda os efeitos da queda da conexão a intervir no curso associativo e, em seguida, a pergunta; você está aí? Seria esta a ocasião para pôr em questão a presença do analista como indispensável ao dispositivo? Como operar com essa contingência sem perder de vista o impossível na sessão analítica? Podemos falar em psicanálise pura via internet, já que a psicanálise é sem standards, mas não sem princípios? Como o divã virtual se localiza quanto à dicotomia entre a psicanálise pura e a aplicada?

Cottet sugere mudar a relação entre o puro e sua aplicação. Ele diz que “quando se vai numa extensão, isto é, da variação entre as práticas, a aplicação não corresponde a uma degradação. Lacan adverte que a psicanálise se degrada em uma imensa desordem psicológica se for sem princípios e sem ética”. A esse respeito, Cottet diz: “Mas essa ideia extrema não é uma fatalidade”, acrescentando que “quando não há as condições ideais para o exercício da psicanálise, é possível considerar outras modalidades de prática que não as do divã”. [9]  

Cottet aborda, sobretudo, o que se refere à psicanálise aplicada fora de seu enquadre standard, reivindicando a possibilidade de um ato analítico fora do que se considera o enquadre clássico. E assim, há um esforço para não rebaixar esse ato institucional reduzindo-o a uma mera psicoterapia de inspiração psicanalítica, que visaria ao rendimento terapêutico, de que Lacan dizia que levava ao pior.  Não há, portanto, a obsessão pelo rendimento terapêutico. A psicanálise não é substituída por conselhos nem tem a finalidade de suprimir o sintoma. Tudo isso são preocupações da terapêutica comum que desconhecem a estrutura subjetiva determinada pelo inconsciente.[10]

Cottet falou da oferta institucional direcionada ao público e lembra que, em “A direção do tratamento…”[11], Lacan sempre fez a oferta preceder à demanda, referindo-se aí ao seu famoso chiste: “com a oferta criei a demanda”. O dispositivo analítico é feito de modo que essa oferta cria a demanda sem responder a ela.


 

[1]  FREUD, S. Análise terminável e interminável (1937). Rio de Janeiro: Imago; 1975. p 267. (Col. Obras completas, 23).
[2]  LACAN, J. (1974) O saber do psicanalista. Inédito, s/p.
[3] ______. J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In:______ Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 253.
[4]  MILLER, J-A.   Donc: la lógica de la cura. Buenos Aires: Paidós, 2011. p. 294.
[5]  MILLER, 2011, p. 286.
[6]  MILLER, 2011, p. 287.
[7]  LACAN, J.  O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar ed, 1998. p. 26.
[8]  ______. A direção do tratamento e os princípios do seu poder. In:______ Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 593.
[9]  COTTET, S. Efeitos terapêuticos na clínica psicanalítica contemporânea. In: SANTOS, T. C. (org.) Efeitos terapêuticos na psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2005. p. 30.
[10]  SANTOS, p. 37.
[11]  LACAN, 1998, p. 623.

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