“O lixo vai falar e numa boa”: racismo, discurso e subversões

“O lixo vai falar e numa boa”: racismo, discurso e subversões

Geisa de Assis – Participante Seção RJ/EBP

Ao retomarmos a discussão que a Decolonização coloca na civilização, uma importante pergunta retorna à psicanálise e aos psicanalistas: “O que é um analista?”. Pergunta que cabe fazer já que as transmissões negras, indígenas e quilombolas descortinam um outro Brasil, diferente daquele que se propõe enquanto cultura, sociedade e Estado no mainstream. Essas transmissões revelam que o Brasil é uma Améfrica, um Pindorama e não um paraíso racial, onde, em suma, exija-se ser europeu e branco. Essa exigência deixa sua marca no inconsciente dos sujeitos brasileiros desde a sua fundação. Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem e o racismo no Brasil é um fato de língua, discurso e gozo nos perguntamos: Qual a lógica do racismo no inconsciente e, seguindo Lacan até o fim de seu ensino, no falasser?

Racismo e discurso

O que está em questão no racismo é a segregação[2], esta está na raiz de todo o discurso e marca a primeira diferença, traumática e violenta, “quando um sujeito adveio como resposta ao gozo do qual foi objeto”[3]. É por ser ao mesmo tempo objeto do desejo do Outro e efeito de seu discurso que se descortina ao sujeito a possibilidade de sua subversão.

Porém, é por meio da linguagem que a segregação consegue exercer seus efeitos e atingir seus alvos. As construções linguageiras são intencionais e operam como uma estrutura econômica, cultural e social que são transmitidas pela palavra. O senso comum que exprime seus saberes, seja implícita ou explicitamente, é uma fonte privilegiada de contribuição e indução à injúria. Isso torna a linguagem instrumento primário da segregação.

Assim, criam-se designações segregativas[4] que separam e visam à exterminação daqueles que apresentam este X inominável que constitui a segregação a fim de designar um mais além do simbólico. Uma designação que se refere, em seus fundamentos, à pulsão de morte e que aponta para qualquer característica, basta que esta seja objeto de expulsão ou escárnio.

É interessante notar as características que Achille Mbembe[5] levanta em relação ao sujeito negro na modernidade: negro é uma palavra, um nome e uma cor. Uma palavra que tem densidade, um nome que castra e amputa e uma cor que é como um destino traçado, revelando que não há espaço para o sujeito no delírio europeu, que promove a associação entre raça e negritude. Ora, é o negro enquanto cripta viva do capital que inaugura estas designações no Ocidente.

Apesar da não existência de raça, no sentido biológico, existe a raça no sentido discursivo, a partir da noção lacaniana de que “uma raça se constitui pelo modo como se transmite, na ordem de um discurso, os lugares simbólicos”[6]. E mais: tais discursos estão dados como estruturas que não se desfazem facilmente.

É então com a ideia de dar lugar de fala ao lixo da linguagem e do que deles dizem, ideia oriunda e colocada como práxis e direção do tratamento analítico, Lélia Gonzalez afirma que o negro no Brasil está na lata de lixo da sociedade e da cultura brasileira que ela analisa como aquela que conscientemente oculta as marcas da africanidade que a constituem para daí propor a subversão: e o lixo vai falar e numa boa.

O discurso racista no Brasil

O mito da democracia racial, discurso instituído no Brasil, é a narrativa que oculta algo para além daquilo que mostra é. A Lélia faz um uso do significante psicanalítico “negativa” e em uma transfiguração demonstra que no Brasil a negativa incide, por homofonia, sobre A-Nêga-Ativa. Ela analisa, então, a mulher negra em quatro lugares – a mucama, a empregada doméstica, a mulata e a mãe preta − para alcançar o que é ocultado pelo mito da democracia racial, já que é sobre a mulher negra que a violência desse mito incide especialmente.

A mulata e a empregada doméstica são atribuições do mesmo sujeito: a mucama. Esta era a mulher negra escravizada que cuidava das crianças, das tarefas domésticas da Casa Grande e era abusada sexualmente pelo senhor branco.

A empregada doméstica é a mulher negra do cotidiano, a mucama permitida, o burro de carga que carrega sua família, mas a malemolência perturbadora da mucama aparece encarnada na mulata que no carnaval é exaltada. O fato da figura da mulher negra escravizada ainda ser uma referência atual na cultura brasileira, nos leva a crer que nunca saímos deste nível colonial. A violência sobre a empregada doméstica se dá pois ela “só faz cutucar a culpabilidade branca porque ela continua sendo a mucama com todas as letras”[7].

Com relação à mãe preta, é ela que faz a função materna na cultura brasileira. A mãe preta não é o exemplo de amor e dedicação à criação dos filhos (dos outros) nem a entreguista, aquela que se entrega ao serviço ao branco, mas sim aquela que transmite a linguagem, os valores da cultura, o pretuguês, a lalíngua brasileira.

Nossas subversões

O analista visa o um sozinho, há Um, não para que ele se isole em seu gozo, mas para que possa se enlaçar de novo por uma outra via, dessegregativa, antirracista.

Porém, ouvir um a um não produz mudanças na estrutura racista. O que pode, então, o analista? E a Psicanálise?

Eric Laurent[8] faz uma crítica à posição de intelectual crítico que o analista pode tomar ao torna-se um especialista da desidentificação e propõe uma nova postura: O analista cidadão. Um dos pontos cruciais dessa posição e a que dá fundamento, é o fato dele ser um analista sensível às formas de segregação.

Isso significa que o psicanalista encarna e, por isso, presentifica o resto a ser segregado, nas análises e na Cidade. A presença do analista não é qualquer uma, mas sim uma presença que dá lugar à uma ausência, a este X inominável, que é estrutural.

Parece, portanto, irremediável ouvirmos as transmissões Outras dos povos originários que sustentam e constituem o chão e o suor do Brasil. A relação moebiana entre universal, particular e singular é imprescindível para não incorrermos em racismos, o que para brancos se coloca na rubrica do impossível, levando-os a se perguntarem o que é possível diante da impossibilidade de não ser racista, se a tomamos da seguinte maneira “o universal da violência do racismo, o particular da resposta dos povos e o singular da resposta de cada um”[9].


 

[1]  Esse texto foi extraído de uma Dissertação de Mestrado intitulada “Um estudo psicanalítico sobre as raízes do racismo” e defendida por mim, Geisa Assim, na UERJ sob a orientação de Heloisa Caldas.
[2]  MILLER, J. Racismo e extimidade. Disponível em: <http://revistaderivasanaliticas.com.br/index.php/accordion-a-2/o-entredois-ou-o-espaco-do-sujeito>. Acesso em: 26/12/2020, p.1-10.
[3]  CALDAS, H. Segregação, violência e errância. In: Errâncias, adolescências e outras estações. Caldas, H; Bemfica, A; Boechat, C. (Org.). Belo Horizonte: Editora EBP, 2016, p.125-135.
[4]  FRIDMAN, P. La segregación y sus destinos. In: Indagaciones psicoanalíticas sobre la segregación. Org: Delgado, O. Fridman, P; 1ªed. – Olivos: Grama Ediciones, 2017.
[5]  MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
[6]  LACAN, J. O aturdito (1972). In: ______. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Versão final de Angelina Harari e Marcus André Vieira. Preparação de Texto de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 448-497. (Campo Freudiano no Brasil).
[7]  GONZALEZ, L. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244
[8  LAURENT, ERIC. O analista cidadão. Revista Curinga Online, n. 13 – Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas, setembro/ 1999, pgs 7-13.
[9]  Comunicação verbal de Andrea Guerra durante uma reunião do Coletivo Ocupação Psicanalítica.

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