O sujeito e a psicanálise: uma parceria possível

O sujeito e a psicanálise: uma parceria possível

Eliane Costa Dias – EBP/AMP

Recentemente, ao propor 2021 como “ano trans”, Miller[1] convocou o Campo Freudiano a se posicionar diante dos discursos de nossa época. Dar conta dessa tarefa exige diferenciar o fenômeno trans, produto e efeito dos discursos de uma época, e o sujeito trans, ser falante que sofre por não se acomodar ao corpo e à identidade que lhe foram designados em seu nascimento.

Na subjetividade de nossa época, a chamada “explosão do gênero” pode ser pensada como uma das versões da crise do real no século XXI, efeito do declínio do NP. A ascensão do objeto a ao zênite social, prevista por Lacan em 1970[2], segue tendo enormes consequências sobre as subjetividades e os laços sociais.

A poderosa aliança entre o discurso capitalista e as tecnociências modificou o parceiro-mundo da psicanálise. O novo parceiro-mundo é globalizado e tecnológico e, como nos diz Miller[3], já não rechaça a psicanálise, talvez a incorpore, num discurso que reconhece o desejo, mas o converte em demanda que gera oferta e mercado; um discurso que faz do gozo um direito e subverte perversamente o uso da palavra que a psicanálise introduz, mercantilizando a escuta.

Qual é a possibilidade de subversão da psicanálise num tempo em que prevalece um utilitarismo do gozo que se une a um utilitarismo do saber sustentado pela ciência?

Marcus André Vieira[4] sugere que o trans, hoje, pode ser pensado como paradigmático de uma posição subjetiva, produzida a partir da evolução e do lugar assumido pelos discursos de gênero na contemporaneidade, mas, paradoxalmente, também como efeito do discurso capitalista, em sua versão mais sofisticada e perversa, o neoliberalismo. Ao ideal do self-made man incorpora-se o gender-made man. Uma superposição entre uma identidade (trans), um modo de gozo e um Eu que fala, que tem direito ao gozo e, supostamente, sabe de seu desejo. Uma posição subjetiva contrária à concepção psicanalítica do humano como sujeito dividido – dividido entre linguagem e indizível, entre sentido e sem sentido, entre saber e contingência.

De que forma as referências deixadas por Freud e por Lacan sobre a sexuação nos ajudam a abordar essas mutações do falasser e da época?

A sexuação é queer por definição

Numa atividade do Observatório de Gênero, Biopolítica e Transexualidade, realizada em novembro de 2020, Fabián Fajnwaks propôs que, “desde a perspectiva da sexuação, os transexuais seriam os verdadeiros analisadores do último ensino de Lacan, uma vez que atestam que a significação fálica não funciona mais para operar a diferença sexual”.

No marco do Seminário 20 de Lacan[5], a noção de diferença sexual dá lugar à noção de sexuação, entendida como o processo em que cada ser falante deve tomar uma posição em relação ao sexual, ou seja, em relação ao corpo e ao gozo indizível que o habita. Com as fórmulas da sexuação, sob a lógica da não-relação e do não-todo, Homem/Mulher passam a corresponder a modos de gozo: um que faz do significante fálico sua medida; outro que ultrapassa as bordas significantes e se apresenta como excessivo, sem lei, sem sentido.

Lacan avança a partir das fórmulas da sexuação até chegar a dizer que o “ser sexuado não se autoriza senão de si mesmo (…) e de alguns outros”[6].  Autorizar-se de si mesmo significa que a posição sexuada não vem do Outro. Cada falasser tem que encontrar por si só um modo de gozo que lhe permita tomar posição em relação ao gozo e ao desejo, uma posição sexuada. A cada um, suas bricolagens com suas peças soltas, seus pedaços de real.

Sergio Laia[7] retomando a afirmação de Lacan[8] de que “o homem nasce mal-entendido”, de que seu corpo é uma espécie de “aborto espontâneo” da causa de desejo que uniu seus genitores, propõe que o transexual nos apresenta numa espécie de slow motion, esse mal-entendido que todos nós portamos em nossos corpos. Nos não transexuais, a norma fálica e a partição Homem/Mulher realizam tão rapidamente a conexão entre anatomia e identidade que não lhes permite perceber o abismo que existe entre uma e outra.

Os corpos trans evidenciam, portanto, o cerne do que se ocupa a psicanálise com todo falasser: a disjunção entre sujeito e corpo, entre significante e pulsão.

François Ansermet[9] nos convida a nos deixarmos ensinar pelo trans, nos deixarmos interrogar diante do que o sujeito trans inventa, nos reinventando também. A aposta central para o analista é abrir-se às soluções sinthomáticas de cada sujeito. “É preciso entrar na língua particular de cada um e seguir as vias singulares, de invenção, que não deixam de surpreender-nos, mas que protegem o sujeito de um real impossível de suportar.”

No entanto, para escutar e se deixar ensinar pela clínica com os sujeitos trans, não se pode submeter o que é dito pelo paciente a valores ou ideais preconcebidos.

Na clínica, o analista pode ajudar o sujeito trans, em primeiro lugar, a enunciar o que é possível da experiência que lhe toma o corpo e o ser. Ajudá-lo a subjetivar e pôr em questão suas eleições, descobrindo com ele os aspectos desconhecidos de sua crença nessa identidade que deseja alcançar, em substituição àquela que a anatomia lhe atribuiu. Uma clínica de bricolagens, não sem riscos – de passagens ao ato, de cirurgias malsucedidas, de decepções devastadoras.


 

[1]  Miller, J-A. Docile au trans. Lacan Quotidien n° 928, 22/04/2021.
[2]  Lacan, J. Radiofonia. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 411.
[3]  Miller, J-A. El lugar y o lazo [2000-2001]. Buenos Aires: Paidós, 2013.
[4]  Vieira, M. A. El analista y las nuevas sexualidades. Conferência proferida em atividade online realizada pela NEL-Cali em 23/06/2021.
[5]  Lacan, J. Seminário 20: mais, ainda [1972-73]. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
[6]  Lacan, J. Séminaire XXI: Les non-dupes errent [1973-74]. Lição de 09 de abril de 1974. Texto inédito.
[7]  Laia, S. Identidad, diversidad y diferencia de los sexos. In: Torres, M. (org.) Transformaciones: ley, diversidad y sexuación. Buenos Aires: Grama, 2013, p. 320.
[8]  Lacan, J. O mal-entendido [1980]. Opção Lacaniana, n° 72, 2016, p. 11.
[9]  Ansermet, F. Intervenção na Conversação Clínica do Observatório de Gênero, Biopolítica e Transexualidade da FAPOL. Barcelona, 06 de abril de 2018 (XI Congresso Mundial da AMP).

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