RELATÓRIO OBSERVATÓRIO #1 DA NEL

RELATÓRIO OBSERVATÓRIO #1 DA NEL

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“Claroscuro 1”. Artista: Adolfo. L.R.Londoño

Primeiro relatório do Observatório #1 da NEL

 

O discurso social privilegia a vertente da mulher como objeto de violência e, como o discurso analítico não o faz, tal como indica o nome do nosso observatório “a violência e as mulheres”, incluímos o contraponto com respeito à vertente das mulheres como agentes de violência.

Um instante de ver nos permitiu estabelecer em cada uma de nossas cidades e países, organizações governamentais e não-governamentais dedicadas à defesa dos direitos das mulheres. Essa listagem inicial decantou-se em algumas pessoas, destas instituições, para serem entrevistadas, o que nos deu uma ideia das diferentes formas de violência contra as mulheres em cada país, assim como dos discursos com relação ao tema e das formas de intervenção desde o Outro social.

Se de alguma maneira privilegiamos a entrevista como forma de indagação, como mostraremos mais adiante, não foi o único dispositivo que surgiu a partir da contingência. A construção das perguntas para as entrevistas implicou, da nossa parte, o estudo prévio dos discursos dos quais estas organizações se servem; assim como delimitar uma questão de pesquisa: A diferença no termo vítima desde o discurso social e desde a psicanálise que, através das perguntas, nos permitiria sinalizar e fazer ressoar nelas algo diferente ao discurso comum, e ao mesmo tempo, obter informação.

Estabelecemos duas formas de violência que se apresentam em nossos países:

  1. A mulher e o conflito armado: as mulheres como vítimas do conflito armado, em Guatemala e Colômbia. As mulheres como atores do conflito armado (combatentes e ex-combatentes) em Colômbia.
  2. A mulher e a violência em família. Em Cochabamba, Bolívia.

Foi necessário, para poder realizar a análise do estabelecimento das entrevistas, o estudo das referências essenciais em quatro vertentes:

  1. A agressividade na psicanálise e a violência, que sem ser um conceito psicoanalítico, pode ser abordada desde nosso discurso.
  2. Sobre a guerra desde Freud, Lacan e a pesquisa coordenada por Marie-Hélène Brousse[1] Desde a filosofia política, autores próximos à AMP, para entender a violência e a guerra desregulada em nossos países como o grau zero da política, tal como a propõem Bernard-Henri Lévy[2] e Jean-Claude Milner.[3]
  3. Sobre a vítima estudamos, especialmente, uma seleção das elaborações e dos textos preparatórios das diferentes Escolas realizados para PIPOL 7 Vítima! Como escapar? Em julho de 2015, em Bruxelas.
  4. Os textos com os que participaram colegas da AMP nos eventos da ONU-Mulheres, especialmente, os de Patrício Álvarez, Miquel Bassols, Gil Caroz, Marie Hélène Brousse e Maria Cristina Aguirre.

Destacamos, dos achados, só os pontos mais importantes, que permitirão orientar o trabalho seguinte e abrir um tempo de compreender para a construção de uma resposta à pergunta sobre a inserção possível da psicanálise em alguma destas organizações, seja no diálogo de saberes, como sinergia entre discursos, ou à pergunta sobre: que trabalho é possível, desde nosso discurso, com mulheres nas organizações nas que calculamos pode-se gerar transferência de trabalho? Estes aspectos serão aprofundados pelas colegas da NEL na reunião do Observatório 1 das três Escolas no ENAPOL.

  1. Os laços identificatórios entre as mulheres, nas organizações para vítimas às quais pertencem. É a vitimização a que da existência a estas mulheres; há uma forma de gozo nesse laço que termina por ser mais importante do que uma mudança na sua posição subjetiva. Mulher e sociedade gozam desse vínculo que encontraram e é importante ver, em cada caso, como não ficar presas nisso. Por outro lado, encontramos que não é possível continuar explicando a violência contra as mulheres só desde o parlêtre.
  2. Surpreendeu-nos a capacidade das mulheres de ter um trabalho, e sustentar suas famílias em situações limite, e o compromisso político para buscar formas de entrelaçar, com os outros, o vínculo social rompido pela violência derivada do conflito armado; assim como se tornarem agentes de mudanças cotidianas, sociais e políticas na luta pelos direitos.
  3. O discurso social considera, desde uma posição feminista, na perspectiva do gênero, que a guerra é altamente patriarcal e que sua essência é resolver os conflitos de forma violenta e passando pela eliminação física e simbólica do outro, outra diferente. Surpreende que desde algumas posições feministas se interroguem, por exemplo, que “as mulheres não são pacíficas por serem mulheres” e que considerem que estas são “posturas essencialistas”. Algumas organizações não incluem mulheres que optaram, de maneira consciente, por ser parte da guerra, mesmo que respeitem essa opção, mas centram seu trabalho em “dar a voz às mulheres que tem sido vítimas do conflito armado, desde diferentes fatos vitimizantes e como parte da sociedade civil”.[4]
  4. Com relação às mulheres combatentes e ex-combatentes do conflito armado Colombiano, a luta insurgente tem se degradado por se tratar de uma guerra de longa duração. Encontra-se uma zona cinza na qual há um apagamento dos limites entre vítimas e vitimários. As mulheres que pertenciam a antigos grupos insurgentes tinham uma posição política que se tem diluído nos atuais grupos; da mesma maneira, destaca-se a ausência de uma posição política nos grupos paramilitares.
  5. A implicação do Estado, em sua ausência ou enfraquecimento, com relação às ações e omissões que teve, assim como às leis que promulga, mesmo tendo o falso semblante de direitos.
  6. Em Bolívia, nos últimos 30 anos, tem se trabalhado para que a violência seja visibilizada e situada como um problema social, o que implica uma mudança nas tradições culturais que sustentavam a posição dos homens. Os informes mostram as mulheres como uma população que sofre violência por parte de seus cônjuges, mas guardam silêncio, algumas vezes porque assumem que nisso consiste a vida de casada, mas em outras para guardar as aparências diante do social. Todo problema do casal tende a ser localizado no campo do privado, mas como o privado tem se tornado público as mulheres buscam ajuda solicitando orientação e proteção. O Estado interveio sobre essa problemática e, em março de 2013, promulgou a lei 348 que situa a violência como um delito penal. Em função desta lei, criaram-se instituições para atender às denunciantes. Apesar disto, nos últimos anos os índices de violência aumentaram, portanto, o problema não muda pelo aumento das sanções.
  7. Em Guatemala, a violência contra as mulheres manifesta-se em dois âmbitos: o privado e o público. No primeiro, no âmbito dos casais ou dos relacionamentos intrafamiliares, é onde são mais escondidos. No âmbito do público, essa violência tem gerado violações massivas de mulheres, em situações de muita crueldade. Durante o conflito armado interno, (que durou 36 anos) foi uma prática generalizada, massiva, brutal.
  8. Nos lugares onde há tráfico de drogas, as formas de violência tomaram um matiz diferente, especialmente associado ao trato de adolescentes, em Colômbia e o feminicídio, em Guatemala, país onde a imigração, em particular para os EUA, torna-se uma via de violência sexual não denunciada.
  9. Outra forma de violência é o racismo contra mulheres indígenas. Durante a guerra em Guatemala, 90% das mulheres violentadas eram indígenas. Ser mulher indígena gera um nível maior de depreciação social e, portanto, de vulnerabilidade social, na medida em que denunciam menos, algo que Jimena Contreras pode comprovar também em Cochabamba.
  10. Beatriz García-Moreno trabalhou duas vertentes: Mulher, violência e beleza, na qual publicou seu produto, “Beleza e violência contra a mulher”, na Revista da NEL, Bitácora lacaniana, Sinthome e corpo falante, Grama Buenos Aires, n. 4, setembro de 2015. A outra vertente de trabalho, introduziu uma novidade no Observatório: o trabalho com um grupo de mulheres na vertente da mulher, da violência e do tecido social.

DISPOSITIVOS DE TRABAJO

Entrevistada Organização Vertente Cidade Entrevistadora
Julieta Montaño Diretora do Escritório Jurídico para a mulher A mulher e a violência na família Cochabamba Jimena Contreras
Lic. Raquel Melgar Diretora de Gênero geracional e família na Prefeitura de Cochabamba A mulher e a violência na família. Cochabamba Jimena Contreras
Lic. Mónica Guzmán Chefa de Serviços Legais Integrais para a mulher A mulher e a violência na família Cochabamba Jimena Contreras
Lic. Patricia Mendoza Psicóloga de Serviços Legais Integrais para a mulher A mulher e a violência na família Cochabamba Jimena Contreras
Marina Gallego

Coordenadora Nacional

Rota Pacífica das mulheres -Prêmio Nacional da Paz 2014- Mulheres vítimas do conflito armado Bogotá María Cristina Giraldo
Análise de pesquisas [5] ECAP, UNAMG, ACSUR y AECID Mulheres vítimas do conflito armado Guatemala Susana Dicker
Luz Méndez [6] Integra uma comissão da ONU Mulheres vítimas do conflito armado Guatemala Susana Dicker
Luz María Londoño Museu Casa da Memória. Área de pesquisa. Mulheres combatentes e ex-combatentes Medellín María Cristina Giraldo
Grupo de Promoção Social FASOL 4 encontros de trabalho com um grupo de mulheres Mulheres vítimas do conflito armado Bogotá Beatriz García M
 
Integrantes do Observatório #1 pela NEL:
Susana Dicker (NEL-Guatemala),
Jimena Contreras (Delegación NEL-Cochabamba),
Beatriz García-Moreno (NEL-Bogotá)
María Cristina Giraldo (NEL-Medellín), coordenadora.

 

NOTAS
[[1]] Brousse, M-H. (Compiladora), El psicoanálisis a la hora de la guerra, Buenos Aires, Tres Haches, 2015, p. 364
[2] Lévy, B-H., Reflexiones sobre la guerra, el mal y el fin de la historia, Barcelona, BSA, 2002, p. 396
[3] Milner, J-C. Por una política de los seres hablantes, Buenos Aires, Grama, 2013, p. 88
[4] Entrevista de Marina Gallego concedida a María Cristina Giraldo. Marina Gallego é Coordenadora Nacional de Ruta Pacífica de las Mujeres (Colombia- Premio Nacional de Paz), para o Observatório 1 da FAPOL, Medellín, Octubro 31 de 2014.
[5] Equipe de Estudios Comunitarios y Acción Psicosocial (ECAP), Unión Nacional de Mujeres Guatemaltecas (UNAMG), ACSUR, ONG de Cooperación para el Desarrollo y AECID (Agencia Española de Cooperación Internacional para el Desarrollo).
[6] Estudos de gênero e mestrado em Administração Pública por Harvard’s Kennedy School of Government. Integrante da mesa de negociações pela paz, depois do conflito armado interno. Fez parte da equipe de expertos para as conversações de paz em Arusha, Tanzania, por UNIFEM. Participou como experta em negociações em Doha, Qatar. Membro do Advisory Council of the Global Fund for Women. Vicepresidencia e presidencia da Unión Nacional de Mujeres Guatemaltecas. Escritora.

 

 

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