Amor demais!

Amor demais!

Lídia Pessoa*

O que pode nos ensinar sobre o amor na contemporaneidade a personagem – narradora do livro “Obsceno abandono” da escritora Marilene Felinto?1Qual é o nome do amor que escreve na sua narrativa? Podemos pensar a partir do conceito Lacaniano recolhido no Seminário 20, “que a mulher não é toda, há sempre alguma coisa nela que escapa ao discurso”2, constitui o propósito deste texto.

A personagem- narradora do livro Obsceno abandono, é uma mulher que traz uma fúria, quase em êxtase pelas palavras no abandono da sua parceria amorosa. Logo de início e vai até o final do livro com a ferocidade que marcam as palavras: “Pois eu quero quevocê vá para o inferno, Charles”.“De todas as pessoas que não me quiseram, você foia pior”.“Ora, uma pessoa não pode viver a outra com tanta intensidade, e depois não viver mais, de uma hora para a outra”. Torna-se “uma mulher que as vezes acorda com cara de homem, às vezes com cara de bicho, outras com cara de monstro – outras vezes com simples cara de palhaço louco”. Diz ela como resposta “da obscenidade do abandono”.

No Seminário 20, Lacan traz uma concepção da mulher diferente da perspectiva até então abordada por Freud. A de que a mulher não está inscrita totalmente na lógica fálica, tem algo nela que não responde a lógica da linguagem e escapa “às leis da fala”3, inscrevendo-a na lógica do gozo feminino, que se trata da obtenção de um outro modo de gozo, considerado feminino, independente da anatomia, mas que perpassa o corpo.

Precisando o conceito de gozo feminino em distinção e não em oposição ao gozo fálico, Marie-Hélène Brousse4, mostra que a problemática do gozo feminino evidencia uma posição que se situa para além das identificações edípicas, é um gozo que não é simbolizável. Porém, não está fora dessa ancoragem construída pelo falo enquanto significante da falta e que representa o elemento que permite ao sujeito organizar seu desejo ao outro. Nesse texto referido de Brousse, tematiza que existe um gozo feminino que não corresponde, por exemplo, ao ideal feminino alçados na cultura.

A mulher na lógica do nãotoda permite Lacan5 dizer que A mulher não existe. Claro que a mulher existe, não na categoria universal e nem no essencialismo que a identifique independente da experiência seja na relação com o outro seja na relação consigo mesma. Há um gozo presente nela que ela não sabe, a não ser que experimente de forma singular.Por exemplo, o gozo místico experimentado por Santa Tereza D’Ávila. Está do lado do nãotoda, tem uma relação como Deus que não é o Deus da religião católica, do papa 6. Outro exemplo de nãotoda posto por Lacan é o amor do tipo trágico na história da mitologia grega vivido por Medéia com Jasão, na lógica do amor e do ódio e dos atos femininos.

No final desse romance de Marilene Felinto, a personagem não se suicida, nem fica louca e nem mata o amante para dar conta da sua fantasia de angustia de abandono. Nas suas rememorações da sua posição feminina de completa entrega a esse amor descobre que o abandono obsceno foi do seu próprio ser. “ não me reconheço em nenhum dos amores que perdi. Arrependimento é uma espécie de não reconhecimento de si mesmo, uma espécie de loucura7. Antes disso, porém, Madeleine exaspera-se, grita, ameaça jogar as coisas dele pela janela do apartamento, fica sem fala, e tem medo. Medo sobretudo de ficar louca como os louquinhos das ruas da sua infância.

“Toda mulher é louca” escreve Lacan em “Televisão”8para dizer que “não loucas-de-todo” e que são até “conciliadoras, ao ponto de não haver limites para as concessões que cada uma faz a um homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens”. O ilimitado do gozo feminino, deste lado nãotoda da mulher como escreveu nas formulas dasexuação no Seminário 209.Em um desenho dividido em duas colunas, temos de um lado a estrutura da posição da sexualidade masculina e do outro lado a estrutura da sexualidade feminina. Homens e mulheres estão submetidos à castração o que os institui na função fálica e consequentemente o significante faz existir o gozo para ambos. Isso indica que o sexual diz respeito à linguagem marcando posições subjetivas conforme a inscrição dos sujeitos nessa função.

Entretanto, Madeleine nos ensina que o amor ao homem lhe dirige para esse “esse gozo que ela é não toda, quer dizer, que a fazem algum lugar ausente de si mesma, ausente enquanto sujeito…”10.Esse gozo que passa pelo corpo vivificando-o como outro efeito de linguagem.

Encontro em Miller algo precioso sobre a vertente do“novo amor”Lacaniano na qual o amor é” invenção”, ou seja, produção de saber: “que el amor es um modo de dirigir-se ao pequeno a a partir del Outro del significante”11.Nessa teoria do amor ressalta a importância das cartas de amor para elaborar um nome próprio ao pequeno a, como fez Dante e muitos outros.

A literatura de Marilene Felinto nessa obra, para finalizar essa minha breve abordagem do amor-gozo feminino, exemplificado pela personagem-narradora, seguindo Miller, é um esforço para dar um nome singular ao Outro barrado. O amor obsceno é um nome do amor escrito nessa literatura.

 

*EBP-Seção Nordeste – cartelizante

Notas
1 FELINTO, Marilene. Obsceno abandono: amor e perda. Rio de Janeiro: Record, 2002.
2 LACAN, Jacques. O seminário: Livro 20 mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p.46. 3BROUSSE,Marie-Hélène.Oqueéumamulher?RevistaLatusaDigitalano9,nº49,julhode2012,p.19. 4Ibidem
5 LACAN. Op cit, p.98
6 BROUSSE. Op cit,p.
7FELINTO. Op cit, p. 38.
8LACAN, Jacques. “Televisão”. In: Outros Escritos (1901-1981). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 538
9LACAN. Op cit, p.105.
10LACAN. Op cit, p.49.
11MILLER, Jacques-Alain. Logicas de la vida amorosa. Buenos Aires: Manantial, 2015, p. 17.

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