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Editorial Lacan 21 nº14


lacan21 - 29 de maio de 2024 - 0 comments

Mónica Febres Cordero

Nós que fazemos a Lacan XXI, não queríamos que o XI ENAPOL, “Começar a se analisar” (Buenos Aires, setembro de 2023) passasse rapidamente seguindo o ritmo vertiginoso dos tempos. Quisemos fazer nossas as palavras de Ricardo Seldes para alargar o tempo, dar lugar para a reflexão, e conseguir extrair consequências do acontecimento Enapol. O staff da revista, assim como nossos convidados, deteve o tempo para dar uma volta a mais, outra leitura das intervenções nas mesas e nas conversações que se ocorreram no Enapol.

Agradecemos a cada autor, a cada resposta, assim como o cuidadoso trabalho dos tradutores. Traduzir, não é uma leitura a mais?

Conversação inacabada com Ricardo Seldes e Fernanda Otoni

Retomo ecos e conversações com Ricardo e Fernanda, conversações abertas, em curso, não acabadas. Retomar, por exemplo, a reflexão de Ricardo: extrair consequências e não deixar os saldos dos Encontros, como o XI Enapol, adormecerem (o que resta?). Isso daria lugar a novas conversações. Para Ricardo, falar “baixinho” a língua do Outro permite fazer-nos ouvir, possibilita a transferência com a psicanálise. Fernanda sustenta a importância da conversação federativa entre as três Escola que formam a Fapol e propõe que o federativo faça laço de cada lalíngua em direção a uma língua comum. As conversações dentro da Fapol permitiram a percussão das ideias, assim como os avanços clínicos em cada instância. Maneira única com que a psicanálise subverte.

Entrevista de Mauricio Tarrab, por Paula Kalfus, Gustavo Moreno e Mariana Schwartzman

Ressalto a última pregunta da entrevista, a que concerne à formação do analista e que inclui um tempo projetado ao futuro: “a posição aberta ao que virá”. Ao responder, Tarrab destaca o dispositivo analítico como “… o lado da formação que depende do que se transmite na experiência analítica”. Orientação ao que virá que toca os três pilares da psicanálise… a história, a repetição e a estrutura.

Entrevista de Marcus André Vieira, por Mariana Schwartzman e Gustavo Moreno

Mariana Schwartzman e Gustavo Moreno fazem uma entrevista com Marcus André Vieira que, como ele mesmo diz, permite “falar um pouco mais”. A meu ver, uma bela entrevista, que é uma leitura que permite esse ganho, esse “pouco mais”, sobre os temas trabalhados.

Iordan Gurgel retoma os ecos do Enapol em seu texto “Analista presente”. Discute a política da psicanálise lacaniana em instituições e conclui: “Assim, o uso da psicanálise nas instituições, ao respeitar a singularidade do sujeito… produz efeitos significativos sobre os saberes estabelecidos. É uma forma do discurso analítico se submeter ao discurso do mestre e também subvertê-lo”[1].

Em “Reverberações do XI Enapol: amor de transferência, real e corpo”, Jussara Jovita Souza da Rosa recorda que o XI Enapol convidava a pensar o que e como se instala hoje em dia esse misterioso amor chamado transferência. Percorre, entre outros, um texto de C. Leguil e propõe considerar na prática analítica a transferência vinculada à realidade sexual do inconsciente ao corpo e ao real.

Gustavo Ramos em “As marcas do sujeito” faz um interessante percurso e anota: “Cernir o ponto de gozo do Outro sobre o sujeito não implica em vitimizá-lo… ao contrário, faz com que o ser falante possa se a ver com aquelas marcas deixadas pelo encontro com o Outro e criar algo novo a partir disso”.

Renata Mendonça escreve “Nada será como antes, amanhã”?[2] Toma o tema de uma canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos para introduzir um tempo que se antecipa: o amanhã já é hoje. Nomear-se negro pode estar no romance familiar, no fantasma, na história do sujeito. O analisante, ao dizer sobre seu corpo negro, faz furo, dilui o Outro, da verdade… do que é ser humano. Conclui: “’nada será como antes’ é um momento frutífero, se o psicanalista não se faz especialista da desidentificação”.

Três perguntas a  com Clara Holguín por Mercedes Iglesias, Beatriz García Moreno e Adolfo Ruiz

Em relação às perguntas da entrevista, anotamos algumas resposta de Clara para a Lacan XXII. O sujeito se confronta com um real, fora de sentido, fora do saber, diante do qual se solicita estabelecer um laço de palavra “…enodar essa urgência ao campo do Outro, mas não de qualquer modo”. Propõe que o sintoma se usa, o que introduz a ideia de uma “medida” singular.

No texto “Efeitos de saber na experiência analítica”, Mercedes Iglesias retoma a problemática do saber no percurso analíticos e através de uma leitura fina e atenta aos detalhes, refere-se a diferentes intervenções durante o Enapol que trataram o tema.

Em “As entradas em análise, entre a urgência e a paciência”, Beatriz Garcia Moreno se pregunta se os tempos da urgência e da paciência nos quais ela se detém permanecem durante o trabalho analítico. Existem diferentes tipos de urgência, sustenta, ainda que seja uma forma particular dela que leva à análise.

No seu texto “A mesa a que não assisti”, Jorge Forbes escreve sobre o (inevitável?) desencontro em cada encontro.

 


[1]  Miller, J. A. Questão de Escola: Proposta sobre a Garantia. Opção Lacaniana online nova série, n. 23, julho 2017.
[2]  Música de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos (1972). O ponto de interrogação se acrescenta para dizer que amanhã já é hoje.

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